[Inscrições] Concurso de one-shots - Memorial Day 2013

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[Inscrições] Concurso de one-shots - Memorial Day 2013

Mensagem por Takuya em Sab Jul 13, 2013 12:47 pm

Olá galera! Como combinado no tópico do anúncio do concurso, hoje abrem as inscrições para quem quiser participar. Lembram-se que elas devem cumprir as regras para publicação de fics da DZ, além das regras do concurso. Quaisquer dúvidas que surgirem é para serem publicadas lá. LEMBREM-SE apenas os usuários que irão participar do concurso deverão postar os links de suas estórias aqui. Qualquer outro comentário será apagado pelos moderadores. Participem gente!

O restante das regras do concurso encontram-se aqui.


Última edição por Takuya em Sab Ago 10, 2013 10:22 pm, editado 1 vez(es)
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Re: [Inscrições] Concurso de one-shots - Memorial Day 2013

Mensagem por Jyunirii em Qua Jul 17, 2013 8:24 pm

Eu vou ser a primeira a postar. yay.
Versão para Download: Aqui.
Vou deixar uma versão bruta aqui (aka: só foi revisado, nada de diferenciação nas letras que indicam estado, ou pensamento, etc.). Antes de lerem, tenho uma coisa a dizer: é uma paródia, antes de mais nada. Procurei não deixá-la confusa, mas o Kouji é um carinha confuso, logo, tive de seguir o IC ao máximo para conseguir o resultado abaixo. E se quiserem comentar, façam isso via MP, blz?

Nome: Acordes de uma Lespaul já não mais sozinha.
Gênero: Drama/Comédia.
Personagens: Kimura Koichi, Minamoto Kouji.
Indicação: K.
Spoiler:
ACORDES DE UMA LESPAUL JÁ NÃO MAIS SOZINHA.

Din Don. Baixe uma oitava.
E de repente não sei mais o que dizer de minha madrasta.
Din din Don. Aguda.
E a Izumi não sai da minha mente.
Don Don. Não erre a partitura.
Maldito Memorial Day.
Dooong.
Eu acho que estou pensando demais.
Din din din.
Mamãe.

“Largue a guitarra, Kouji. Desse jeito você não vai conseguir tocar.”


Foi o que minha mente me disse, e logo me vi deitando minha velha Lespaul azul na cama e me jogando na cadeira do computador.

Todos conhecem a minha história, depois de Frontier. De repente descubro que minha mãe não está morta e que tenho uma cópia idêntica a minha cara vagando Japão a fora. E que, logo após de saber disso, meu irmão está a dois segundos dos braços de Hades, e eu consigo salvá-lo.

Louco, não? Calma, o solo vem agora.

Minha madrasta estava traindo meu pai havia quatro anos, e toda a fortuna que a empresa dele conseguiu fornecer ela roubou. Quando meu pai se deu conta, ela fugiu com tudo.
O mais daora da história é que foi ela que fez meus pais se separarem. Moral de tudo, depois de cinco meses obscuros onde só tinha meu pai e eu na pista, mamãe aparece e tudo volta a ser como era antes.
Antes de eu e Koichi nascermos.

- Kouji? Tá de pé?
- To, Koichi. Pode entrar.

Uma coisa que mudou radicalmente a minha rotina: Minha mãe e meu irmão virem morarem com meu pai e eu. Eu já estava acostumado a ouvir gritos maternos de “vá tomar banho!” “lave a louça!” “Esqueceste de levar o lixo a rua, não?”, mas entrei em choque porque agora eu tinha um carinha com cara de menino doce mas que era o maior folgado e gato-de-rua declarado que existe nesta dimensão.

E para variar: eu não estava muito bem adaptado com isso. E já vai fazer três meses.

E meu irmão entrou no meu quarto.  Ele levava nas costas um Stratocaster preto com cordas azuis e algumas partituras.

- Preciso ir no médico lá em Nerima. Vamos?
- A mãe não vai contigo?
- Mamãe não está em casa, e o papai ta ocupado. - ele deu um sorrisinho maroto - a consulta acaba antes das três, dá para tocar um pouco no pátio da estação. Por favor, vem comigo.

Um fato em off: Koichi costumava tocar em Nerima para descolar uns trocados para ajudar a mamãe em casa. Hoje ele ainda toca por uns trocados, que no caso ele gasta em HQs de Akihabara.

- Vamos, já que você não vai me deixar em paz mesmo...
- Ah! Leva a Lespaul. Ela chama bastante atenção.

Desanimei.

- “Tire o gato da rua, mas a rua não sai do gato”, não é o que dizem... - e saí ajeitando a guitarra nas costas.
- Eu sei que sou bonito, não precisa elogiar.
- Não foi com essa intenção que eu te xinguei, Koichi.

...

- O que foi? Até parece que sua alma voltou pro mundo digital... - Koichi comentou enquanto estávamos embarcando no trem.
- Ah há há, palhaço.
- Quié? Só descontraí um pouco.
- Não, to imaginando que tudo está acontecendo rápido demais...

O trem entrou no túnel.

- Nisso eu concordo com você. - ele olhou para a janela. - Até um ano e meio atrás éramos só duas crianças diferentes com histórias diferentes. E há três meses vivíamos em realidades muito distintas.
- Verdade.

Nos sentamos.

- Kouji, como que era a vida antes da gente chegar?

O olhei com surpresa. Apesar dele saber superficialmente da historia, ele nunca chegou a perguntar isso. Logo achei um ponto qualquer no trem e fixei meu olhar nele, enquanto despejava as palavras.

- Como uma vida normal qualquer. Eu não tinha me adaptado muito bem com a Sachiko e por isso não procurava me relacionar com ela, entanto meu pai fazia de tudo para que a gente se desse bem. Depois daquele dia, até tentei me dar bem com ela e talz, mas peguei uma conversa dela no telefone com alguém... Acho que o nome da pessoa era Kuromikawa, qualquer coisa assim, e quando eu contei para meu pai, começamos a investigar e... Bem... Você sabe. Deu aquele rolo com a empresa.

“Estação de Yoyogi. Yoyogi. Ao desembarcar, leve consigo o lixo. A natureza agradece.”

- E com vocês? Como que era a vida de vocês antes de vir morar conosco?

Ele hesitou.

- Bem, éramos duas pessoas relativamente pobres, e a coisa piorou quando a vovó morreu. A mamãe trabalhava dia e noite nos plantões do hospital e o salário dela mal dava para pagar as contas, então depois das aulas eu ia para alguma estação bem movimentada e tocava um pouco. Nem sempre rendia muito, mas geralmente eu ganhava uns trocados bons e às vezes umas lembrancinhas do pessoal. Tem uma senhorita chamada Yamaguchi, na estação de Shinjuku, que sempre que passava por lá deixava um pacote de balas e dez mil yenes. Ela me adorava.

- Que vida dura a de vocês.

“Estação de Nishiguchi-Shinjuku. Nishiguchi-Shinjuku. Antes de sair, verifique se não está deixando nenhum pertence para trás. A companhia não se responsabiliza por objetos perdidos dentro das composições.”

- Fico imaginando como que vai ser a vida daqui para frente. - Koichi soltou, observando as portas se fecharem.
- Acho que vai ser melhor. Para ambos os lados.
- Você acha, Kouji?
- Eu acho. Bem, se considerar que o pai ainda guardava um restinho de amor pela mãe e que estava disposto a recomeçar tudo, porque não? Outra, estamos juntos agora. Dessa tudo vai ficar bem.
- Se você diz...
- Deixe de ser pessimista! - e baguncei o cabelo dele.

Apesar dessa conversa meio séria demais para dois rapazes de catorze anos, somos irmãos normais.
Normais do tipo: por mentos na coca-cola, dançar Macarena e depois apontar um na cara do outro. O gosto é horrível e a mãe falta esganar a gente por causa da roupa, mas nós nos divertimos. Mais do que nunca.

Algumas vezes ao ano o Koichi vai ao cardiologista em Nerima. Pelo que eu soube, é sequela daquela queda em que fomos ao Mundo Digital. Ele ficou tempo demais em inércia que afetou alguns vasos. É como hoje, ele vai para um exame de rotina.

E depois do exame, a parte favorita dele: ser músico de rua por algumas horas.

Ao contrário do exame, não fomos bem abençoados porque um guardinha chutou a gente da estação de Nerima. Até Shinjuku fomos tocando Medleys do Linkin Park e do Bon Jovi, coisa que muitos no vagão curtiram.

- E claro, ganhamos uns troquinhos! - Koichi vibrou, com gritinhos.

Quando chegamos à Estação de Shinjuku, já era fim de tarde. Sentamos ali mesmo na pracinha e em pouco tempo estávamos brilhando.

- Toca uma do Metallica!
- Toca a Highway to Hell, do AC/DC!
- Não não! Eu te pago X yenes pra tocar a nova do Arctic Monkeys!!
- Que tal tocar a Fire, do Wada?
- Hã? - Meu irmão e eu paramos.

Uma mulher alta e morena, tipicamente japonesa, estava parada com um saco de pirulitos. E estava acompanhada com uma amiga muito próxima nossa: Izumi.

- Yamaguchi-san! Orimoto! Bom vê-las! - Koichi disparou, com um sorriso francamente satisfeito no rosto.
- Digo o mesmo, garoto. Fazia tempo que não o via. E quem é-- Olha, já nos vimos antes? - a mulher reparou em mim.
- Creio que sim. Oi Izumi. - e acenei para a loira.
- Boa noite, meninos. Acho que já conhece a Gabumon, não?
- Gabumon?- eu e meu irmão falamos em uníssono. - Yamaguchi Mayumi? A dubladora do Jenrya?

Ela corou.

- Sabia que já tinha te visto em algum lugar, garoto.
- E eu ganhando bala dela sem nem saber disso, que vergonha... - Meu irmão amuou.
- Se é, Koichi. - completei. - Mas diga, que vos trazem aqui?
- Eu tinha vindo para atender um pedido da produção. Estão lembrados do Memorial Day, certo? - Izumi tomou frente.
- Estamos.
- Então, que tal a gente juntar todos os músicos para um show? A Mayumi-san foi pegar os convites para vocês.
- Aqui estão, meninos. - a mulher estendeu os papéis - A gente vai juntar com os integrantes da Teenage Wolves, a Ruki, a Mimi, a Yoshino e a Nene. Será que sai algo bom?
- Se algum eles souber tocar baixo, por que não? - Koichi retrucou, divertido.

Rimos.

- Preciso ir agora, meninos, tenho que passar na casa da Ai-chan* para avisar ela. Nos vemos por aí!

E a mulher saiu.

- Se importam se eu ficar por aqui? - Izumi perguntou.
- Senta aí! - Koichi convidou - Vai que a gente ganha uns trocadinhos a mais por ter uma italiana bonitinha por aqui? Se der, vamos no Subway!

Ela corou, e nós dois rimos.

- Bem oportunista você, hein? - ela nos olhou com uma ponta de ódio.
- Quié? Vai me dizer que não quer ir no Subway?
- Não porque eu voltei de lá agora! - e ela fez um muxoxo.
- A gente compra um doce pra ela e fica com o resto. - falei, brincando - Quanto que tava aquela HQ, mesmo?
- Credo, me trocar por uns quadrinhos do Batman. Gêmeos do mal, vocês dois.

No fim rimos. Depois de um tempo pondo os assuntos em dia, começamos a tocar e cantar An Endless Tale. Quando percebemos, já era bem tarde.

- Quer que a gente te leve em casa, Izumi? - perguntei, com as mãos no bolso enquanto esperava meu irmão ganhar a batalha contra o estojo da guitarra. - Está bem tarde, não?
- Se quiserem ir até Shibuya sim, mas vai ficar meio longe da casa de vocês, não?
- Vamos fazer caminho inverso para te acompanhar, mas você decide. - Koichi sugeriu.

Ela pensou.

- Uhn, deixa para lá, se acontecer algo, eu ligo pro Kouji. - e balançou o celular.
- Não quer o meu celular? O dele sempre está sem bateria. - Koichi ofereceu.
- Não precisa, até porque vocês estão sempre juntos.
- Ta bom, então. Mande um e-mail quando chegar em casa. - eu disse, por fim.
- Okaaay! - e ela saiu correndo pra a estação.
- Ué, nem esperou pela gente... - divaguei.
- Bem, tem duas respostas para isso.
- Quais seriam, ó Oracle? - ironizei.
- Há há, palhaço. - ele devolveu - A primeira seria “Eu to atrasada pro jantar” coisa que nós dois também estamos (porque são mais de oito da noite), e a segunda é que ela ta afim de você, maninho.

De novo não. Este assunto de novo não.
Acho que fiz alguma cara que sinalizou que o assunto não seria uma boa para conversar.

- Opa, pisei em algum calo.
- Não, Koichi, nem é por isso, só... É, é um assunto meio chato de se tratar, mas deixe.
- Bom, a gente tem um loooooongo caminho para você me contar tudo.
- Nem um pouco curioso você, né?
- Ou você me conta, ou eu fico sabendo desta história da pior maneira.

Uma tradução: “da pior maneira = você vai conhecer o inferno na terra, camarada”.

Suspirei. Comecei a caminhar para a estação e ele me seguiu.

- Não é muito mais do que você sabe, Koichi. Você se deu o trabalho de ouvir o CD Drama?
- Só a nossa faixa.
- Nossa, muito lindo Sr. Kimura. Assim que chegar em casa puxa na net pra ouvir. Acontece que ela acabou falando no melhor estilo Harajukuniano que gosta de mim e eu dei um fora nela.
- Muito lindo digo eu! Deu um fora nela? - ele disse, surpreso.

Entramos no trem.

- Koichi, simplesmente não dá para ficar com ela, se o meu melhor amigo ta ultra-afinzaço! Seria... Sacanagem.
- Ta, que seja, continue a história.
- Aí ta nesse rolo, cara. O ruim da história é que eu que comecei a me sentir atraído por ela. E o Takuya, mole do jeito que é não falou mais nada, mas é louco por ela.

O trem começou a se mexer. Eu e ele nos sentamos e eu olhei para a janela.

- Tem hora que eu fico fora de mim por causa disso. - baguncei meu cabelo.

“Estação de Yoyogi. Yoyogi. Caso não desembarque nesta estação, por favor, fique fora da região das portas, se possível.”

- Acho que dessa vez não tenho como te consolar, Kouji. Não vivi uma situação assim para te dar conselho a sair dessa.
- Não tenho muita saída. A história é esquecer.

Ficamos em silêncio. Nem pegamos nas guitarras para tocar como fizemos até horas atrás de Nerima a Shinjuku. Quando chegamos em casa, mamãe não ficou muito nervosa pelo nosso atraso, mais pelo fato de que tínhamos chegado exatamente quando ela terminou a janta.

- A sorte sorriu para vocês hoje. Mas não conte com isso, eu não vou mais fazer plantão na semana, ficou claro? - ela falou num tom maternal, aquela mistura carinhosa de tom atencioso e raiva por saber que ficamos acordados até tarde.
- Menos tempo no videogame... - Koichi sussurrou no meu ouvido. Apenas me limitei a dar um olhar cúmplice.
- Subam e tomem um banho. Me recuso a deixar vocês comerem enquanto estão sujos!

Tiramos no jan-ken-poh e ele ganhou.

- E como sempre, os mais velhos primeiro!
- Palhaço! - xinguei.

Enquanto meu irmão reinava no banho enquanto cantava qualquer música do álbum Salamander, resolvi entrar no quarto e guardar a guitarra. De repente a tela se acendeu e eu o busquei rapidamente.

Era Yamato Ishida.

“A Yamaguchi entregou os papéis do MemoDay. O que você acha de irmos nos apresentar no pátio da estação de Odaiba?”

Me apressei a responder.

“Não seria melhor um local mais democrático? Que tal o prédio da Dieta? É difícil a gente passar o MemoDay em Shinjuku.”

Larguei o celular em cima da cama e procurei por roupas limpas, mas fui interrompido por outra tela a piscar.

Era Izumi.

“Consegui chegar sã e salva em casa, Kouji. Se o Koichi não estivesse junto eu insistiria para que você viesse. Preciso conversar com você. Se cuida viu?”

Larguei o que estava fazendo. Ela conseguiu me prender.

“Não dá para conversar por e-mail, Izumi?”
“Até dava, mas preferiria olhar nos seus olhos enquanto conversávamos. Que tal amanhã, depois das aulas?”

Pensei um pouco.

“Estação Yoyogi?”
“Pode ser.”

Minha mãe gritou perguntando se já tínhamos tomado o banho, e eu respondi que o Koichi resolver criar a Koichilândia lá dentro. Quando foi a minha vez, procurei deixar para pensar naquilo depois que eu tivesse apagado as luzes e fechado a porta do meu quarto. Porque eu sabia que aquilo ia me deixar perturbado.

...

No dia seguinte tive de implorar para meu irmão ir para casa primeiro, porque eu tinha um assunto a resolver, e tinha de ser sozinho.

- Mas depois você me conta, certo? - ele me fez jurar.
- Ta bom, ta bom, agora rala peito! - e o expulsei.

Corri para a estação de Aoyama-Itchome e rezei para que não fosse nada sério.

- Bom vê-lo, Kouji. - e ela sorriu.

Não sou tão romântico que nem o Koichi, então simplesmente resumo que estava feliz por vê-la, mas que me controlei para não lhe dar muitas esperanças e ser objetivo na conversa, independente do assunto.

- Digo o mesmo, Izumi. Importa-se se formos ali na sorveteria? Acho que ficaria meio complicado de conversar aqui--
- Vou ser direta, Kouji: tenho duas perguntas para te fazer. - ela disparou.

Engoli em seco minha gentileza.

- Pois fale.
- A primeira: O Takuya gosta ou não de mim?

Senti um choque trespassar meu corpo.

- Para quê queres saber?
- Se me responder, eu te conto.

Respirei fundo.

- Sim, ele gosta. Só que ele e mole demais para chegar e te contar.
- Ah...
- E a segunda pergunta? - estava curioso.
- Ah, a segunda...

Ela suspirou e olhou para as catracas.

- Queria saber se meu amor foi capaz de ter chegado em você, Kouji. Não preciso repetir aquela ladainha toda, né?
- Quanto a isso, Izumi, a história é meia complicada. Vou refazer o convite: quer ir à sorveteria?
- Não.
- Ok então. De um jeito resumido: Sim, você conseguiu a façanha de me conquistar, mas tem um ser de cabelo castanho e espírito de fogo que estava de olho em você há muito, mas MUITO mais tempo que eu. É injustiça eu roubar a menina dele, não acha?

Ela me olhou séria.

- Eu avisei que a história era complicada. - e dei de ombros.
- Então quer dizer que seria capaz de desistir de mim por causa do Takuya?
- Sim.

Olhamos um para o outro.

- Agora você me conta o porquê de vir perguntar isso para mim.
- Porque ele me mandou uma mensagem dia desses me chamando para sair, mas fiquei com medo, porque por um devaneio meu você poderia ficar com ciúmes.
- Ah sim. Se vocês quiserem apoio, eu posso ajudar, ok?
- Todo o apoio que você podia dar já deu. - ela sorriu - Fico meio triste de não ser correspondida na hora, mas fico feliz que você me quer ver feliz. Te admiro, sabia?

Eu sorri. O peso daquela culpa simplesmente saiu da minha mente.

- Fico feliz de ouvir isso.
- Bem, eu já vou. Combinei com as meninas do DATS que ia ajudar na decoração do salão que vamos fazer a festa. Vocês decidiram onde vão tocar?
- Eu falei que seria bom em Shinjuku, mas...
- Ah sei... Bem até depois!

Ela saiu correndo e atravessou a saída da estação. Eu me virei para continuar meu caminho para casa, mas fui parado por uma ruiva baixa com um uniforme cinza.

- Era você mesmo que eu queria conversar.
- Quem-- Ah, Ruki Makino, de Tamers. Aconteceu algo?
- Nada demais, mas o Yamato pediu para a gente dar uma ensaiada na minha casa, no domingo. Vais?
- Vou. Pode me passar seu número? Talvez eu vá precisar dele.

...

- Ah ta, aí você entrega a menina pro Takuya e fala “nada de mais aconteceu”? Seu virgem! - Koichi bufou enquanto comia.
- Falou o pegador de mulher! - retruquei - Mas é sério. É só isso. E tem ensaio na casa da Ruki domingo agora.
- Tem comida lá?
- KOICHI! - fiquei bravo.
- Quié? “Tire o gato da rua, mas a rua não sai do gato” não é o que dizem? - ele sorriu

Cheguei em casa mais cedo do que eu tinha previsto, então deu tempo de ter pego o mousse de limão que a mãe tinha feito noite passada. Depois que eu tive a conversa com a Izumi, tudo pareceu fluir mais simples e suave do que antes.

Por fim, a gente conseguiu se arrumar e a empresa do papai estava dando lucros. Toda a fortuna que a Sachiko levou restabelecemos em poucos meses.
Eu não tinha percebido, mas os dias que nos separavam do Memorial Day passaram tão rápido quanto comida na frente do Koichi que quando dei por mim, estava tocando para vários fãs na frente do prédio da dieta, embalados por uma tarde de sol quente e vozes bem animadas, com nós a cantarolar as músicas da franquia. Fiquei impressionado com os presentes que ganhei.

E o mais impressionante de tudo....


.... Foi que eu estava com a guitarra na mão, e não sabia partitura alguma, mas que estava lá, tocando.

E resolvi pensar que aquela guitarra era eu.

Estava desafinado, mas voltei a produzir boas melodias.
Talvez porque eu não estava fechado.
Talvez porque, agora, eu não estava mais intrigado.
Nem mais queria saber sobre a mãe misteriosa de que meu pai ocultou a existência.
Ou meu irmão gêmeo que por muito pouco não morreu.
Ou talvez uma italianinha que mexeu comigo e eu não estava preparado.
Só que agora eu não tinha mais dúvidas.

- Vamos lá! - agitei.

Eu não estava mais sozinho. Estava bem para continuar em frente. Estav bem para continuar tocando qualquer melodia.

- OOOOON MY LOOOOOOOOVE~


NOTAS:

* = Ai Maeda.

Todas as estações citadas são reais, fazendo parte da linha E. Apenas a estação de Nishiguchi-Shinjuku que teve o nome invertido (O correto seria Shinjuku-Nishiguchi).


Última edição por Juny Lee em Seg Jul 22, 2013 6:18 pm, editado 1 vez(es)
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Re: [Inscrições] Concurso de one-shots - Memorial Day 2013

Mensagem por Rayana em Dom Jul 21, 2013 11:03 pm

Título: O Lago dos Caídos
Temporada: Digimon Adventure 02
Género: Mistério, Fantasia
Público-alvo: T (13+)
Protagonistas: Taichi, Agumon.

Spoiler:

Digimon Adventure 02: O Lago dos Caídos
by Rayana Wolfer

- Como assim vocês pararam no caminho para fazer um piquenique!?

Era verdade que conseguia ouvir a voz de Daisuke a rir-se e a conversar animadamente com V-mon, mas nunca imaginara que o grupo de escolhidos novatos pudesse estar tão relaxado numa situação daquelas!

- Desculpa, maninho... – pelo menos Hikari tinha o bom senso de soar nervosa e ansiosa pelo intercomunicador – A Miyako-chan trouxe comida da loja dos pais dela – hesitou – Os digimons lutaram toda a manhã. Toda a gente estava cheia de fome, então... sabes como é...

Aquele tom angustiado costumava ter a faculdade mágica de lhe derreter o coração e acalmá-lo, por isso Taichi chegou mesmo a pensar que estava a ser demasiado exigente. Afinal de contas, desde Abril que o grupo de Daisuke trabalhava arduamente para lutar contra o imperador. Até mesmo eles tinham direito a um merecido período de descanso...

No entanto, eis que o encantamento foi quebrado... por uma explosão violenta de gargalhadas.

- É a tua vez, Miyako! – algures ao lado de Hikari, ouviu através do aparelho digital a voz divertidíssima de Daisuke ao fundo – Verdade ou consequência?

- Eeehh!? Eu não disse que queria participar na brincadeira!

- Como assim!? Tu obrigaste-me a beijar o V-mon na boca!

Taichi piscou os olhos para o dispositivo que segurava na sua mão direita, incrédulo. Nem mesmo a profunda reverência que geralmente reservava pela sua irmã o podia demover do sentimento de fúria que lhe ferveu o sangue naquele momento.

- HIKARI! – vociferou de tal maneira que Agumon sobressaltou-se e voltou-se na sua direcção, perplexo – Há uma maldita torre negra aqui para ser destruída! Diz ao Daisuke que se ele não vier agora mesmo eu vou exigir as malditas goggles do meu avô de volta!!!

Imaginou que a sua explosão de impaciência devia ter-se ouvido de forma notável, pois todos os risinhos dengosos calaram-se e até Daisuke parou de reclamar. Mas Taichi não ficou à espera de qualquer resposta; a deitar fumo pelas orelhas, rosnou uma obscenidade entre dentes e desligou o maldito intercomunicador num acesso descontrolado de raiva.

Esse gesto devolveu o silêncio à pequena clareira da floresta onde se encontrava, com o parceiro.

- Taichi...

- O que é!? – voltou-se para trás, zangado.

Foi encontrar Agumon a dois metros, parado sobre uma rocha para estudar o terreno. O pobre dinossauro laranja hesitou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para o escolhido da coragem perceber que tinha ido longe demais.

- Por que é que estás tão zangado? – perguntou o digimon, perturbado.

Taichi resmungou. Havia demasiadas razões para invocar, mas sentiu-se francamente cansado para sequer tentar explicar. Agumon não tinha culpa nenhuma, claro. Mas o que podia ele dizer? Tentou respirar fundo...

- Desculpa. Não foi nada – desviou o olhar, acanhado; mas, em vez de responder, mudou atabalhoadamente de assunto – Vem, não podemos ficar aqui parados.

Os passos pesados que ouviu atrás de si garantiram-lhe, pelo menos, que Agumon descera da rocha e que continuou a segui-lo fielmente.

O céu azul estava limpo, não se via digimons alados em lugar algum, o que significava que ainda não tinham sido notados pelo inimigo. Mas, à medida que caminhavam, o silêncio do bosque começava a fazê-lo experimentar alguma apreensão.

Sabia que devia estar muito perto de um lago, pois ouvia o burburinho calmo de água em movimento. Porém, ainda não via sinais da torre negra de que estavam à procura desde essa manhã.

- Taichi... - viu que Agumon farejava o ar, atento, embora também não parecesse detectar nada de suspeito – A gente não devia ter esperado por eles?

Talvez fosse apenas uma pergunta casual, mas Taichi sentiu-se provocado. Não respondeu. Será que ninguém percebia que faltava menos de uma semana para as férias de Verão começarem? Será que Daisuke não entendia que iriam deixar de ter acesso à sala de computadores por causa disso, muito em breve? O que aconteceria com a Digital World entretanto? E se o Kaiser continuasse a atacar, na ausência deles?

Por isso, continuava a caminhar, a explorar o terreno, atento a qualquer sinal de um obelisco preto. Não era tempo para brincadeiras... Eles tinham um dever a cumprir...

- Estamos a caminhar há horas, mas ainda não encontrámos nada – a voz de Agumon insistiu; só que desta vez, indiciava alguma preocupação – Eu não posso proteger-te se formos atacados, Taichi.

- Relaxa, o Daisuke já vêm a caminho...

Ou pelo menos era o que Taichi esperava. Encheu os pulmões de ar, apelando à sua paciência. É claro que o Yagami jamais o acusaria verbalmente por isso, mas Agumon parecia tão resignado com a sua falta de poder e dependência no subgrupo de escolhidos, que chegava a ser enervante.

O ambiente parecia um pouco mais pesado e desconfortável do que o normal. Ou será que era sentimento de culpa a pesar-lhe no peito? Sabia que era uma infantilidade culpar os amigos. Pensando bem, contudo, há quase quatro meses que tinham Ken Ichijouji à solta como um louco pelo Mundo Digital. Era por culpa dele que Agumon não podia evoluir para o nível adulto. Já tinha passado algumas semanas. O pequeno dinossauro fora até obrigado a lutar contra uma espiral maligna, que era apenas mais um dos pequenos brinquedos que o Kaiser desenvolvera, num laboratório experimental isolado, só para tentar controlar digimons como Metal Greymon...

Eram memórias que ainda faziam-lhe ferver o sangue. Sentia uma profunda gratidão por Daisuke ter salvo e ajudado o seu precioso amigo... mas isso não compensava, de todo, a grande revolta e impotência que lhe consumiam a boca do estômago, qual fogo vivo, só de saber que um pirralho metido a Hitler, alguém até mais novo do que ele, era capaz de destruir quase todo o sacrifício que despendera em nome do mundo digital, ao lado de Agumon!

Taichi tinha aprendido a lição. Enquanto pudesse, não devia deixar o parceiro digimon sozinho e sujeito novamente a tamanho perigo. Nem que para isso tivesse que sacrificar a assiduidade na escola... tinha que continuar a proteger e poupar o amigo a evoluir novamente para Skull Greymon, ou Metal Greymon Virus, ou lá o que fosse. Não podia simplesmente baixar a guarda só porque o Kaiser era uma criança. Não era uma criança qualquer...

Podia até admitir que talvez tivesse sido um pouco precipitado. Tomara aquela decisão sem consultar a opinião de ninguém. Imaginava Yamato ou Sora naquele momento a olharem para a sua cadeira vazia, nas aulas de História, a indagarem-se onde ele estaria.

A missão dele era ajudar o grupo a encontrar novas torres negras. Pelo menos, ainda era algo que ele e Agumon podiam fazer. Mover-se nas sombras, sem despertar atenções, era um dos melhores atributos que a Digital World lhe tinha ensinado a desenvolver aos onze anos. A ideia de ficar parado sem fazer nada, à luz dos acontecimentos mais recentes e dos que estava por vir, era-lhe um pensamento insuportável.

«Devias confiar no Daisuke... Oniichan...»

Taichi confiava nele. Se não confiasse, dificilmente se teria arriscado ali sozinho com Agumon. Mesmo que de péssimo humor. Mesmo que depois de cinco horas à procura de uma torre negra que parecia impossível de localizar...

Certo?

- Taichi...

Mas aparentemente só Taichi parecia preocupado por saber que iriam ficar afastados da Digital World durante todo o mês de Agosto...

- Taichi?

Daisuke tinha beijado o V-mon num jogo de verdade ou consequência. Ainda não sabia se devia rir ou chorar...

- Taichi! A luz está a piscar.

O escolhido da coragem mal ouvia o pequeno dinossauro. Percebeu só segundos depois que o intercomunicador emitia um sinal. Aquilo significava que alguém tentava entrar em comunicação consigo. Talvez fosse o grupo de Daisuke que quisesse pedir desculpas? Com ar carrancudo, decidiu porém dar-lhes uma oportunidade. Voltou a ligar o dispositivo.

- Daisuke? – tentou fazer o seu melhor por dominar o temperamento.

- Sou eu Taichi-san.

A voz não era do colega do seu kouhai, nem da Hikari. Mas sabia que havia um terceiro intercomunicador que estava na pose de um dos seus melhores amigos: Koushirou Izumi, que comunicava consigo a partir da sala de computadores do Mundo Real. Pelo menos, ao contrário da irmã, não tentara dissuadi-lo de tentar ajudar o grupo, embora naquele caso particular parecesse desconfiado de que algo muito estranho se passava. Segundo ele, a zona que calcavam estava controlada por uma torre, mas não dava para saber exactamente se era território inimigo ou não.

- O sinal ficou mais forte, acho que devias parar e esperar.

- Koushirou, relaxa. Ainda não encontrei nada. Ainda não vi torre em lugar nenhum...

- Vocês entraram na área dela há cinco minutos. Não te aproximes mais, o Kaiser vai perceber o sinal do teu digivice, Taichi-san...

Taichi não sabia dizer que ele se sentia aliviado ou apreensivo; Koushirou não parecia estar a censurá-lo, embora também não parecesse particularmente radiante. Entreolhou-se com Agumon, mas o digimon parecia tão confuso como ele. Em silêncio, voltaram a observar atentamente os arredores.

Era verdade que estava um silêncio incomodativo, mas a vegetação exótica parecia a mesma de sempre. Por entre as árvores, só havia plantas e flores de várias espécies. Vislumbrou até um sinal de trânsito aleatório do seu lado esquerdo, mas não era um elemento exactamente alienígena para quem conhecesse a Digital World.

Nada que parecesse ter relevância.

- Taichi, o lago... - Agumon disse aquilo e começou a mover-se em direcção à vegetação. Curioso, Taichi seguiu-o. Pisaram o território selvagem e desviaram-se de espinhos e arbustos por dois minutos.

Mas, na medida em que avançavam, começou a sentir um formigueiro na nuca...

- Agumon, cuidado...

O ar circundante esfriou como se tivessem entrado numa arca frigorífica. Ouviu uma exclamação do parceiro, mas percebeu imediatamente porquê. À frente deles, a floresta tinha rasgado-se em duas, emoldurando o cenário de um gigantesco lago. Porém, em vez do cenário fluvial de céu azul e límpido que tinha ficado para trás, ali depararam-se com uma névoa cinzenta e gélida que obscurecia o ar, o horizonte, e até mesmo as profundezas das águas. Taichi não conseguia ver sequer a extensão real das margens rochosas, cujos braços se espreguiçavam por vários metros para a esquerda e para a direita, até desaparecerem de vista pelo nevoeiro. Entretanto, quase completamente mergulhada e escondida dentro de água, ali estava ela...

Tinham encontrado a torre negra. De facto, teria sido impossível detectá-la; a ponta do grande obelisco de cor preta espreitava apenas vagamente para fora da superfície da água, exactamente no centro e interior do lago. Taichi sentiu um sorriso involuntário crescer-lhe nos lábios. Tinham demorado uma manhã inteira... mas ali estava ela.

- Koushirou, encontrámo-la! – disse pelo intercomunicador – Ele escondeu-a bem desta vez!

Porém, o ruído da interferência distorceu completamente a voz do amigo, que soou algo parecido a «...tactar... per... aisuke... uidado...». Isto não foi propriamente inesperado. Se a torre conseguia afectar digivices e impedir evoluções sagradas, o que dizer de quaisquer meros aparelhos electrónicos?

- Agumon... não consegues destruir a torre?

Sabia perfeitamente que era impossível. O olhar que o dinossauro lhe dirigiu foi quase recriminatório. Era uma distância demasiado grande, mesmo que pudesse evoluir. Aquele era o trabalho para um digimon aquático ou, no mínimo, um voador com poder de fogo suficiente para penetrar e vencer a massa de água que certamente amorteceria o impacto de qualquer investida.

Teria sido, porém, um trabalho fácil para War Greymon...

- Taichi... - a voz de Agumon balbuciou, conhecedor do significado do seu silêncio – A gente devia ter esperado pela Hikari. O que fazemos agora?

Taichi já não tinha aquele tipo de privilégio. Por mais doloroso que lhe fosse, cabia agora a Daisuke, à sua irmã, Takeru, Miyako e Iori... cabia à nova geração de crianças escolhidas aquele tipo de trabalho. Já o sabia há muito tempo, mas ser constantemente relembrado disso era...

- Vamos... – hesitou – Vamos embora.

Sentiu as garras do pequeno dinossauro roçarem-lhe gentilmente na mão. Em silêncio, para garantir que ninguém os ouvia, começaram a afastar-se. Taichi liderava o caminho de retorno... mesmo que... mesmo que, por cada passo que dava parecesse sofrer um doloroso golpe no seu ânimo.

Ele já sabia que ia ser assim. Agumon não podia evoluir. Tudo o que podia fazer era localizar as torres.
Mas, então, por que razão se sentia tão...?

- Agumon...

- Hnm?

Havia uma comparação que Taichi tinha na cabeça e que possivelmente podia ajudar a descrever o seu humor. E se ele, nalgum momento de aflição, pedisse ajuda a um dos seus vizinhos para ajudar a resolver um problema seu? Como seria se, depois de vários meses ou talvez um ano, Taichi de repente sentisse a necessidade de ver-se livre do seu salvador? Qual seria a justiça disso?

Não era exactamente o que a Digital World tinha feito com ele? Usá-lo e deitado fora? Não fora por aquela razão que tinha depositado toda a sua confiança em Daisuke? Será que... não tivera sido, simplesmente, obrigado?

Com o poder do seu brasão da Coragem, tinha conseguido proteger a Digital World. Mas, logo depois, fora forçado a retirar-se... a confiar no subgrupo para destruir as torres...

Mas no que a barreira digital servia o objectivo deles, naquele instante? Não era melhor se Agumon continuasse a poder evoluir? Não teria sido melhor se... nunca tivesse evoluído, logo de início

Não soube por que razão tudo isto lhe vinha à mente. O que se passava consigo!?

- Agumon...

Agumon piscou os olhos verdes, visivelmente confundido. O escolhido da coragem imaginou se não seria uma pergunta demasiado complexa para o parceiro conseguir responder.

- Achas que... – engoliu – estou pior agora do que há dois anos atrás?

- Pior...? Como assim?

Algures nos recônditos as sua mente, a sua consciência gritava-lhe que o melhor era calar-se, que acabaria por falar demais. Mas, por alguma razão, a sua boca aguiu antes que pudesse filtrar o que dizia.

- Não podes evoluir mais por minha causa – murmurou.

Os passos de Agumon estancaram. Taichi compreendeu logo que devia ter-se dominado. Voltou-se para trás e viu o digimon encará-lo, com uma expressão zangada.

- Isso não é verdade...

- … - Taichi não acreditou.

- Não é por tua culpa, Taichi! Eu... - o olhar de Agumon divagou pelo chão, como se sofresse por encontrar no seu vocabulário limitado as palavras certas para se exprimir – A culpa não é tua! – repetiu – Como é que podes pensar uma coisa dessas? A culpa é...

Depois de tanto tempo juntos, não havia mais ninguém que fosse capaz de o compreender tão bem. Taichi provavelmente também mentiria só para evitar que o parceiro se sentisse culpado e indisposto consigo próprio. Mas como podia aquietar a alma com uma mentira, quando a realidade o obrigava a oferecer as suas costas a um dos monólitos que marcavam o território do Kaiser, sem destruí-lo com as próprias forças?

O que Agumon queria dizer, porém, não chegou a descobrir. Naquele preciso momento, o frio gelado da floresta cresceu e solidificou-se numa névoa ainda mais intensa.

De repente, ouviu-se um risinho masculino e acetinado, tão suave como a melodia de uma flauta. Taichi sentiu os cabelos em pé.

- Orarara... vocês ouviram?

- Sim, sim... - uma segunda vozinha riu-se, como resposta à primeira.

Taichi e Agumon sobressaltaram-se, alarmados. Giraram as cabeças em direcções opostas. As vozes que tinham acabado de ouvir ecoavam misteriosamente; não dava para imaginar sequer de onde vinham.

- Quem está aí?! – o escolhido vociferou, num impulso dominante.

A única resposta que teve foi um coro de risos, que mais uma vez, ecoaram em redor como uma comunidade invisível; era como se todas as árvores tivessem adquirido personalidade e começassem a conversar entre si.

- Ele não sabe quem somos...!

- Não sabe, não sabe...

- Vieram até tão longe, mas não sabem... -
uma terceira voz feminina cantarolou e outros risos responderam em concordância.

- Taichi... o que fazemos agora!? - Agumon estava completamente desorientado, mas o escolhido também não percebia o que estava a acontecer. Se ele pudesse transmiti-lo em palavras, diria que havia uma multidão escondida nos arbustos, mas que por alguma razão, eram vozes sem corpo físico...

Tinha que agir depressa. Tinha um mau pressentimento.

- Agumon, corre!

Sem olhar para trás, lado a lado, Taichi e o pequeno T-rex desataram a fugir a toda a velocidade pelo caminho de regresso. Se tinham chegado ali em dois minutos, com certeza não seria difícil regressassem ao ponto de partida. Odiava ter que admiti-lo... mas, daquela vez, oferecer as suas costas era o melhor plano que tinha.

Atravessaram arbustos e mais árvores, afastando-se cada vez mais. Deviam estar quase...

- Taichi!

Mas havia alguma coisa errada. Agumon percebera. Os risinhos que ecoavam pela floresta continuavam a perseguir-lhes os ouvidos, qual espíritos do lago que os assombrassem. O ambiente frio e gélido não dava sinais de apaziguar... bem pelo contrário: corriam há três minutos e o nevoeiro não ia embora, as vozes pareciam até mais próximas! Como era possível!?

- Orarara, não adianta fugir...

- Vocês vieram... não podem fugir.

- Não fujam de nós...


Splash!

Taichi arrepiou-se e quase gritou, pois os seus dois pés mergulharam inesperadamente em água fria, até aos tornozelos! Estava um verdadeiro gelo! Mas aquilo também significava que... estavam a correr às cegas.

- Agumon, pára!

Quase tropeçou e foi contra ele, mas Agumon obedeceu. Ofegantes, observaram o cenário em volta, alarmados. Não tinham regressado ao ponto de partida. Em vez disso, inexplicavelmente, parecia que tinham penetrado ainda mais no nevoeiro do lago. E como é que a água chegara até ali?

Taichi fez a única coisa que lhe pareceu sensata.

- Koushirou! - apertou o botão do intercomunicador, na esperança de que tivesse alcance – Koushirou, estás a ouvir!?

Infelizmente, não teve qualquer tipo de resposta, nem mesmo um ruído que desse sinal mínimo de ter sido ouvido. Já começava a amaldiçoar a sua sorte. Era por culpa sua que estava naquela situação...

- Dagomon-sama...

- Dagomon...

- Dagon-sama...


Os dois ficaram petrificados.

- Taichi... - a voz de Agumon foi tão fina que não se parecia nada com a que estava habituado a ouvir. Não obstante, até o escolhido da coragem tinha perdido a fala.

O som que ouvia era suave, como os ondas de um oceano longínquo. Por entre as cortinas densas e gélidas do nevoeiro, as vozes sinistras uniram-se e transformaram-se na respiração pesada de um único ser. Taichi viu um par de olhos vermelhos brilharem na névoa, ao mesmo tempo que um vulto tenebroso, cheio de tentáculos pegajosos, tomou forma à sua frente. Foi como se todos os seus piores medos e emoções, de repente, emergissem das profundezas do seu inconsciente.

Os risos quase zombeteiros que ouvira antes... Agumon, controlado pela espiral maligna... a evoluir para um Metal Greymon azul, sem obedecer à sua voz suplicante...
Os sentimentos de raiva que tivera nessa manhã voltavam em força, mais intensas do que nunca...

Talvez Agumon nunca devesse tê-lo como parceiro
.

Talvez o melhor fosse mesmo que ele, Taichi, nunca tivesse conhecido a Digital World...

- Devias tomar cuidado com o que desejas, rapaz... - uma voz profunda, quase mórbida, gelou-lhe o sangue que sentia nas veias.

O que aconteceu, nunca entendeu. Sentiu-se apenas cair de joelhos na água fria. Deixou de ver, de compreender, ou sequer de ouvir. A sensação de frio, que o mergulhava na névoa, era tudo o que tinha... e só percebeu, afinal, que nem mesmo Agumon o podia salvar daquela vez.

*****

- Oniichan... Oniichan!

- AGUMON! – gritou ao mesmo tempo que se levantou, mas bateu com a cabeça com toda a força contra um objecto duro – Au!

Precisou de vários segundos para deixar de ver estrelas frente dos olhos, até que sacudiu a cabeça, completamente confuso.

Onde estava?

- Taichi, vais chegar tarde à escola. Levanta-te e veste-te!

Taichi olhou em volta.

Estava sentado na sua cama. Tinha batido com a cabeça contra o tecto da cama superior. Mas, por alguma razão que não sabia explicar, Hikari e a sua mãe estavam no quarto dele. Se bem que...

Espera. Ele não devia estar no Mundo Digital?

A senhora Yuuko sorria-lhes pela porta do quarto, com o cabelo apanhado num rabo de cavalo.

- Venham tomar o café. Hikari-chan, não te esqueças do remédio sim?

Taichi não entendeu muito bem, mas viu a mãe desaparecer, enquanto Hikari parecia estar apenas à espera que ele, seu irmão, se preparasse. Tinha a gata Miko no colo. Ao contrário dele, ninguém lhe ordenara a ela que despisse o seu pijama e que se fosse vestir.

- O que foi? Pareces estranho... – Hikari sentou-se aos pés da sua cama – Estavas a falar durante o sono.

- Ah... não é nada. – Taichi franziu o sobrolho; viu a porta do quarto semi aberta, por isso talvez a mãe não os ouvisse – É que... podia jurar que estava no Mundo Digimon com o Agumon. Que dia é hoje?

O olhar que Hikari lhe deitou foi algo estranho. Ela hesitou...

- É Segunda-feira. Falta três dias para as tuas férias da escola. – voltou a sorrir.

A gata espreguiçou-se e começou a ronronar em cima das pernas dela. Taichi demorou-se um pouco a observá-la antes de voltar a atenção para a sua irmã. Podia ser imaginação sua, mas Hikari estava mais pálida do que o normal. Tinha os olhos brilhantes e um ar adoentado. Apesar disso, continuava a afagar o gato como se nada fosse.

- A Tailmon vai ficar com ciúmes quando te ver assim – Taichi fungou e levantou-se da cama para procurar o que vestir, quase à espera de que a digimon aparecesse de repente nalgum canto.

Mais uma vez, a resposta que teve foi neutra.

- ...quem?

Taichi parou no meio do quarto. Não foi só pela resposta da irmã. Instintivamente, prevarar-se para ir buscar um camisa da gaveta, para vesti-la... mas descobriu que o móvel, aquele onde costumava guardar a roupa, não estava no lugar do costume. Este simples detalhe, contudo, fê-lo olhar em volta, espantado.

Não. Não era só o móvel da roupa. Havia um tanto de outros objectos e formas que se distanciavam do que estava acostumado a encontrar. Estava, sem dúvida, num lugar familiar, e a distribuição da mobília não lhe era de todo desconhecida. No entanto... aquele estava longe de ser o seu quarto. Era seu quarto... mas, ao mesmo tempo, não era.

Uma pontada de pânico começou a invadi-lo.

Era o quarto que ele tivera, muitos anos atrás, em Hikarigaoka.

Disparou o olhar para Hikari, novamente. Ela estava diferente... era a mesma Hikari, mas ao mesmo tempo não era. O sorriso, os trejeitos... era tudo igual. Mas...

- Taichi! Vais chegar tarde!

Taichi ignorou a voz da mãe; aproximou-se da irmã e encarou-a seriamente olhos nos olhos, para espanto dela. Não era imaginação sua. Os olhos dela não eram tão vivos quanto os da Hikari que conhecia.

- Hikari... lembras-te do que aconteceu em Hikarigaoka há sete anos? Quando o Koromon veio a nossa casa?

A irmã devolveu-lhe um ar curioso.

- Koromon? - repetiu, num tom interessado – Há pouco também falaste em outros «qualquer-coisa-mons». O que é isso?

Taichi sentiu-se paralizado, a olhar para ela.

Não... Não, não podia ser verdade. Aquela não era a Hikari! A Hikari que ele conhecia nunca se tinha esquecido do Koromon! Aquela não era a sua casa. Aquele quarto NÃO era o seu. Taichi não percebia nada do que lhe estava a acontecer, mas aquele mundo...

Novamente começou a entrar em pânico.

Aquele mundo não era o seu.

- Isso mesmo rapaz. Finalmente percebeste.

Taichi levantou-se num pulo, muito bruscamente, para procurar o dono da voz. Não demorou muito para encontrá-lo: num mar de névoa esbranquiçada, o enorme monstro que tinha presenciado na floresta estava a obsevá-lo fixamente. Viu os seus grandes olhos vermelhos suspensos lá fora, através do vidro da janela da varanda do quarto...

- TU!

Dagomon riu-se com voz ressoante, como se cada delicada gargalhada viesse das profundezas da própria terra. Taichi alarmou-se; girou os calcanhares e olhou na direcção de Hikari, para tentar protegê-la... mas para sua grande surpresa, esta ignorava completamente a existência do monstro. Tinha voltado a focar toda a sua atenção na gata doméstica, como se nunca tivessem sido interrompidos.

- E-Ela... - gaguejou e apontou para a irmã, assustado – O que foi que lhe fizeste!? - voltou-se para Dagomon, horrorizado – Ela está diferente.

O digimon das profundezas do oceano crispou os seus olhos, mas não respondeu.

- O Agumon! O que foi que fizeste ao Agumon!? – Taichi começou a desesperar; será que estava a ficar louco? – Por que é que me trouxeste para aqui!?

- Aqui? – a boca de Dagomon não se mexeu; mas os seus olhos ameaçadores reclamavam a autoria da voz cavernosa e o tom provocante que ecoavam pelo espaço – Aqui não existe se não na tua mente, rapaz.

O quê?

Taichi piscou os olhos. Não compreendia... Mas, francamente, não estava minimamente interessado em decifrar enigmas naquelas condições.

- O Agumon... se lhe fizeste alguma coisa, eu juro que... - foi interrompido por um grave riso de divertimento que vez vibrar o solo debaixo dos seus pés descalços, e o Yagami não gostou de descobrir que era a vibração provocada pela garganta do digimon.

- Não fui eu quem te privou do teu parceiro, escolhido.

Dagomon parecia particularmente tranquilo com a situação, recorrendo a um tom insuportavelmente calmo. O escolhido da coragem sabia que isso não podia ser bom sinal.

- O que queres dizer com isso?

- Devias tomar cuidado com o que desejas. Pensa nas tuas últimas ansiedades, antes de teres caído nas águas do Meu oceano...

Taichi caiu em si.

Durante toda a manhã tinha-se sentido nervoso e impaciente. Desejara poder fazer mais para ajudar o mundo digital, mas, ao mesmo tempo, culpara-o e vira-se ressentido por depender do grupo de Daisuke para destruir as torres. Quando encontrara Dagomon, sem querer, deixara emergir um pensamento cruel, que tinha vindo a esforçar-se por recalcar e suprimir... pois era um pensamento (...ou ressentimento? Nem sabia dizer...) que tinha vergonha de admitir até para consigo próprio.

E se ele nunca tivesse conhecido Agumon? Será que as coisas não seriam melhores, se nunca tivesse conhecido a Digital World...?

«Devias tomar cuidado com o que desejas, rapaz...»

Taichi olhou para o vulto de Dagomon, receoso. A voz não fora sua imaginação. Era a mesma que comunicava consigo agora.

- Não...

Dagomon anuiu e moveu os seus tentáculos de forma ameaçadora.

- No teu inconsciente, este é o mundo que desejas.

- Não!

- As águas do Meu oceano não mentem. Elas revelam o mais profundo e obscuro desejo da alma humana.

- Impossível!

Só para aumentar o seu pavor, Dagomon pareceu aborrecer-se da conversa. Lentamente, virava costas...

Começou a preocupar-se. E se fosse verdade...? Ele mostrava mesmo intenções de ir-se embora.

- E-Espera...

Mas Dagomon não o ouviu.

- ESPERA!

- Disseste alguma coisa? - a voz da irmã interrompeu-o.

Taichi girou a cabeça; Hikari parecia ter despertado e observava-o novamente com curiosidade.

Neste mundo, nunca tinham conhecido os digimons.

- ESPERA, NÃO ME DISS.. - mas quando voltou a olhar para a varanda, o monstro já tinha desaparecido.
Sentiu-se... desorientado. Na falta de melhor palavra... aterrorizado.

Naquele mundo, nunca tinham conhecido os digimons...

O Mundo Digital simplesmente não existia. Taichi nunca tinha sido uma criança escolhida. Aquela luta em Hikarigaoka, em 1995, que os tornava escolhidos, nunca acontecera. Aquele bairro nunca tinha sido palco de uma luta entre Greymon e Parrotmon. A sua família nunca sentira necessidade de sair daquele bairro, porque nunca houvera vestígios misteriosos de destruição. A destruição nunca tinha espalhado rumores sobre «atentados terroristas». As famílias de Hikarigaoka não tinham sentido necessidade de abandonar o bairro e tentar nova vida em Odaiba.

Era um pesadelo. Aquele quarto não era seu. Pertencia a um Taichi que catorze anos que nunca tinha tido um Agumon como parceiro. Era um espectro, um possibilidade da sua existência que naquele momento assombrava-o na forma física daquele quarto.

- Oniichan?

E aquela Hikari? O que se passava com ela? Parecia genuinamente preocupada consigo... Taichi imaginou que, para ela, ele talvez tivesse ficado doido. Mas não era a sua irmã. Como seria viver com uma irmã que nunca tinha conhecido a Tailmon?

- D... Desculpa, estava distraído. Ignora o que eu disse, está bem? - Taichi gaguejou, tentando soar o mais normal que podia. Teve perfeita noção de como falhava miseravelmente.

Com as mãos a tremer e o coração a cavalgar, procurou em todos os móveis as suas roupas, sentindo os olhos fixos da sua irmã em cada gesto que fazia. Por que será que ela continuava ali a observá-lo?

Era estranho, mas Taichi conseguiu descobrur mais ou menos onde poderia estar a roupa. Não encontrou o uniforme verde de Odaiba. O uniforme de Hikarigaoka era vermelho, com botões dourados. Era as roupas que se lembrava de ver alguns estudantes do secundário usar quando era pequeno e ia brincar no parque.

O mesmo parque onde uma vez Hikari desmaiara...

- Taichi, que demora! - a mãe apareceu novamente à porta, visivelmente impaciente – A Sora-kun já está à tua espera lá fora; até quando a vais fazer esperar? Nem tomaste o café...

- A Sora?! - Taichi exclamou.

Yuuko ergueu as sobrancelhas, espantada. Observou-o fixamente, como se estivesse a avaliar a sanidade mental do filho.

- Aconteceu alguma coisa...?

- Não! - Taichi interrompeu-a, nervoso – N-Não é nada, é que eu pensei que ela tivesse um compromisso hoje.

- Oh... - a senhora franziu o sobrolho, mas não disse nada.

Tinha que admitir, sentia uma certa curiosidade por saber como era a Sora daquele mundo, mas... sacudiu-se mentalmente. Que diabo! Não era altura para pensar naquilo! Ele devia estar a tentar descobrir uma maneira de sair daquele lugar! O que é que ia fazer agora?

Rosnou entre dentes. Correu para onde sabia ser a cozinha e decidiu que pelo menos tinha um bom pretexto para sair de casa. Não tinha que ir à escola. Podia muito bem tentar livrar-se de Sora pelo caminho...

- Até logo! - gritou para o ar.

- Maninho...?

Olhou para trás. Viu Hikari sorrir-lhe com um ar melancólico, do corredor. Tinha um copo de água na mão, que tinha um cheiro nauseante a remédios. Não tinha despido o pijama, nem parecia sentir-se obrigada a fazê-lo. Como se nunca fosse às aulas. Parecia até... conformada com aquela rotina...

- Bom dia e boas aulas, maninho – ela sorriu-lhe com o ar mais doce e gentil que alguma vez lhe vira. Uma doçura tão grande, que Taichi não soube explicar. Foi como ver a mesma Hikari de oito anos, apenas um pouca mais crescida e pouco menos desenvolvida fisicamente. A fragilidade e o corpo doente, contudo, eram os mesmos...

Foi então quando percebeu.

Aquela Hikari nunca tinha lutado contra Vandemon. Nunca tinha descoberto a sua própria força interior. Não sabia nada da grande coragem com que se tinha sacrificado para salvar Tailmon e as crianças de Odaiba. A pele dela nunca tinha tomado o Sol saudável do outro mundo. Aquelas pernas frágeis nunca se tinham desenvolvido com as caminhadas longas, as corridas pela sobrevivência, com todas as aventuras que tinham vivido juntos no Mundo Digital.

Esta era a mesma Hikari que Taichi, um dia, obrigara a jogar futebol na rua, e que tinha sido internada por três dias no hospital, com uma pneumonia.

Sentiu nojo de si próprio. Como é que ele nunca percebera o quanto a sua irmã tinha mudado, desde que conhecera os Digimons? Sentiu uma vontade sufocante de se estrangular, de se castigar severamente por ser tão tapado. Se chegasse a conhecer o Yamato deste mundo, certamente que merece-lo-ia...

Largou a maçaneta da porta. Voltou atrás para aproximar-se daquela... irmã. Hikari pestanejou, com um olhar curioso, e Taichi contemplou-lhe aqueles olhos brilhantes... e as fases rosadas pela febre. Desviou-lhe a franja do rosto e, sem se conter, beijou-a respeitosamente na testa. Deu-lhe um semi-abraço carinhoso.

- Ittekimasu.

Hikari não parecer estranhar-lhe a atitude. Aceitou o abraço com grande carinho, e, quando ele a largou, a menos que os olhos de Taichi o enganassem, a tristeza dela tinha desaparecido. Irradiava um sorriso muito mais feliz e sincero do que antes.

- Itterashai!

Não conseguiu deixar de pensar, com uma sensação mórbida de culpa, que talvez aquele fosse um gesto de rotina do Taichi que vivia naquele mundo.

Abriu a porta e saiu, com os olhos cheios de lágrimas.

****

- Ainda não me disseste o que aconteceu. Por que é que estavas a chorar?

Sora estava há quase dez minutos a tentar saber o que havia de errado com ele. Taichi tinha a certeza que havia um montão de coisas que estava a fazer diferente do “Yagami” que ela conhecia. Ele, por sua vez, estava um pouco fascinado e não conseguia tirar os olhos dela.

Sora estava praticamente igual. Talvez um pouco menos feminina e mais prática, parecia ter-se resignado com o uso da saia do uniforme de Hikarigaoka, mas caminhava de forma orgulhosa e despreocupada. Naquele momento brincava com uma bola de futebol enquanto iam para a escola. Além disso, guardava sempre um sorriso especial para si, exactamente da forma como Taichi se recordava desde que eram colegas do jardim de infância.

Mas não havia como deixar-se iludir. Esta Sora não tinha uma relação saudável com a mãe. Durante todo o caminho, Taichi ouviu-a desabafar sobre a forma como a senhora Takenouchi parecia incapaz de compreendê-la.

- Ela nem parece uma mãe! Só se importa com as notas que tiro quando é para falar de mim às vizinhas... - era uma declaração um pouco perturbadora.

- Ela deve gostar de ti, lá no fundo... todas as mães gostam.

Sora chutou a bola para o ar e apanhou-a com as mãos.

- O que se passa contigo hoje?! - olhou para ele, indignada – Ela não precisa de um advogado de defesa.

Taichi hesitou, nervosíssimo.

- N-Não é isso! Só estava a pensar que... podias tentar ver o ponto de vista dela, mais nada...

- Ela não se incomoda com o MEU ponto de vista, por que raio havia eu de me preocupar com o dela?

Havia tantas coisas erradas nesta forma de pensamento, que Taichi não sabia nem por onde começar. Ia tentar retaliar e fazê-la ver as coisas por outro prisma, quando, de repente, ouviu um coro de gargalhadas. Taichi voltou-se, confuso. Procurou saber de onde provinha tamanha algazarra.

Não teve que olhar muito. A cerca de oito metros, do outro lado da estrada, estava um rapaz pequeno de cabelo ruivo, rodeado por um grupo de cinco rufias. Ao que parecia, o líder era um rapaz alto, de cabelos louros e compridos. Tinha um sorriso provocador, senhor de si, e um cigarro pendurado nos lábios. Os outros empurravam o rapaz mais pequeno, passando o seu corpo morto uns para os outros, como se o coitado fosse uma boneca de trapos. Taichi ia preparar-se para reagir e manifestar a sua profunda indignação... só que Sora foi mais rápida.

- Eu não acredito! - Sora pareceu ficar completamente fora de si – Taichi, guarda-me a bola!

- O qu-!?

Sora atirou a mochila para o chão sem cerimónias e confiou aos braços de Taichi a sua bola de futebol. O escolhido da coragem segurou-a sem nem pensar e ficou ali, especado, a vê-la a correr na direcção do rapaz ruivo que estava a ser vítima de bullying.

- Koushirou!!! - ouviu-a gritar.

A bola escorregou dos braços do Yagami para o chão, com o choque.

Não o tinha reconhecido.

Koushirou estava no meio do chão, de olhos fechados, agora com os braços em volta do computador portátil, apertando-o contra o peito, como se não se importasse com nada do que lhe pudessem fazer de mal. O computador parecia mais importante do que tudo o resto. Mas as surpresas não pararam por aí.

O líder do grupo levantou a cabeça e dirigiu um olhar sedutor a Sora, quando a viu aproximar-se. Taichi ficou completamente petrificado.

Era Yamato Ishida. O rosto, o olhar, o cabelo, tudo era igual, até mesmo a guitarra que levava ao ombro. Só que a postura, o cigarro, as roupas... tudo isso tornava-no uma pessoa completamente diferente.

- Oh oh, Sora Takenouchi to the rescue! - Yamato riu-se e comentou num inglês provocador, a olhar para as pernas dela – Eu não disse? É só a gente brincar com os amigos dela. É muito amor!

O grupo em volta desatou a rir; Sora empurrou um dos rapazes do caminho e apanhou Koushirou. Ajudou-o a levantar-se e dirigiu um olhar cheio de lágrimas de raiva.

- Tu metes nojo, Ishida! Deixa-o em paz!

- Cuidado com a língua, Takenouchi – Yamato aproximou-se e agarrou-a pelo pulso, com um sorriso – Que eu saiba, não está aqui ninguém para te proteger. O covarde do Yagami está ali e nem se mexe, para variar.

Taichi não precisou de ver mais. Tudo o que estava a testemunhar era demais para si. Aquele não era o Yamato Ishida que ele conhecia, nem que ele se matasse! Contrariando todas as expectativas do louro, Taichi largou a própria mochila no meio do chão e não respondeu por si. Oito metros de corrida foram um segundo. Espetou o seu melhor soco no rosto dele, obrigando-o a largar o braço da amiga e fazendo-o cair ao chão.

- Taichi?! – Sora exclamou, abismada.

Se o Taichi daquele mundo era um covarde ou não, não o sabia. Mundo falso ou verdadeiro, ELE não ia parar quieto a observar os amigos dele a serem humilhados daquela maneira! Muito menos por um covarde recalcado, que abusava dos afectos de uma mulher só para receber atenção dela!

Esperava até que, imediatamente a seguir, o resto do gangue respondesse de forma violenta, vindo para cima de si. Mas Taichi depressa descobriu que todos os rapazes estavam demasiado surpreendidos, para sequer tomarem uma reacção. Ou talvez não partilhassem um verdadeiro laço de afectividade com o Ishida? Para eles parecia indiferente se o líder deles era espancado ou não.

Um dos rapazes (não bastasse as surpresas que tinha tido até agora) era Daisuke Motomiya. Ele olhava para si, Taichi, com um misto de medo e de fascínio. Taichi nem queria acreditar nos seus olhos. O Daisuke que ele conhecia jamais ficaria parado a observar, enquanto um dos seus amigos era derrubado ao chão.

Mas esperava pelo menos que Yamato, ao contrário dos outros, ripostasse e continuasse a luta. Desde que os dois começassem a rebolar pelo chão... talvez estivesse tudo bem. Era o método com que Taichi tinha conquistado a sua amizade, muito anos atrás. Podia fazê-lo novamente. Podia forçar algum juízo naquela cabeça, na porrada. Sentiu a fúria daqueles olhos azuis-safira fixos nos seus. Era agora ou nunca.

No entanto, e ao contrário de tudo o que esperava...

- Vamos embora. - ouviu a voz de Yamato dizer. Ele deitou um último olhar a Sora... e virou costas.
Taichi não teve reacção. Como assim? Yamato Ishida simplesmente recuava, sem nem tentar?

Não...


Olhou para trás. Sora observava o rosto magoado de Koushirou, preocupada. Ela, pelo canto do olhos, dirigia dardos de puro ódio a Yamato, que se afastava, acompanhado pelo grupo. Eles diziam alguma coisa, prometiam ameaças... mas Taichi nem os ouvia.

Estava tudo errado.

Aquele olhar, que aquele Yamato dirigira àquela Sora... era um olhar especial. Mesmo que manifestado no contexto errado, Taichi mal queria acreditar. Aquele Yamato também gostava dela. Mas, por algum contexto desafortunado, aquele tornara-se o seu modo de chamar a atenção dela... de forçá-la a olhar para si.

Não. Isto não era absolutamente nada do que Taichi queria. O que diabo estava acontecer!? Aquele Daisuke nunca conhecera o «Taichi-senpai» que o tinha inspirado a usar goggles no recreio da escola, e nunca conhecera V-mon. Projectava o seu ideal num Yamato corrompido. Aquele Yamato, que nunca superara o trauma do divórcio dos pais e por isso desistira de tentar obter a confiança das pessoas. Não tinha amizades. Recorria aos piores métodos para ter o que queria. Sora odiáva-o... E Koushirou? Taichi podia vê-lo agora. Desculpava-se a Sora, nem sequer conseguia olhá-la nos olhos, sentindo-se um miserável. Taichi compreendia. Ele estava tão envergonhado, que parecia querer desaparecer daquela rua o mais rápido possível. Continuava agarrado ao computador portátil, seguro contra o peito, como se fosse o seu melhor e mais precioso amigo...

Parem...

Não queria continuar ali. Aquele tinha sido o pensamento mais estúpido que alguma vez tivera.

Parem com isto!

Ele precisava do Mundo Digital. Koushirou precisava do Tentomon. Sora precisava da Piyomon. Yamato precisava do Gabumon. O V-mon era indispensável a Daisuke. A Hikari precisava de Tailmon... E ele... ele precisava de Agumon.

Como diabo podia alguma vez ter pensado no contrário!?

Quando ele voltasse... Taichi não ia reclamar. Nunca mais. Em vez disso, tinha que explicar-lhes tudo. Tinha que contar a Daisuke, a Miyako, a Iori... tinha que deixar-lhes bem claro a verdadeira razão por que eles defendiam o Mundo Digital! Tinham que dizer-lhes exactamente o quanto era importante ser uma criança escolhida. Qual era o problema, se eles se divertissem um pouco? Era perfeitamente normal que o fizessem... O Mundo Digital era o lugar graças ao qual eles se tinham tornado pessoas melhores.

Ele, Taichi, também já fora assim uma vez. Tinha-se esquecido completamente. Se ele realmente queria que a nova geração de escolhidos o compreendessem... tinha que agir e dar o exemplo. Não podia continuar a lamentar-se.

Dagomon! PÁRA!!!

Foi como se fosse libertado de um enorme peso no seu coração. Não soube bem como, quando, ou porquê... mas Dagomon não voltou a aparecer. Tudo ficou escuro... e, no final, foi como acordar de um pesadelo e voltar a dormir tranquilo.

*****

- Taichi...

Sora agradecia-lhe, cheia de admiração, por a ter ajudado. Ele, ao mesmo tempo, conquistava alguma espécie de orgulho na sua pessoa...

- Oniichan!

Mas jurava a si mesmo que ia tentar salvar Koushirou.


- O que diabos aconteceu aqui, afinal?

Iria tornar-se o seu primeiro melhor amigo.

- Taichi-senpai!

Não teria conseguido continuar a dormir, nem se quisesse. Estava uma confusão de vozes diabólica, e era impossível tentar compreender sequer o que tinha acontecido, ou por que sequer estava deitado no chão.
Abriu os olhos, mas praguejou e tornou a fechá-los, contra a luz forte do sol que lhe feriu a vista.

- Taichi!?

- Espera, ele está a acordar...

Que diabo...?

Pestanejou novamente, ensonado. Um dos vultos tapou o sol, e Taichi pôde descobrir o rosto preocupadíssimo do Daisuke.

- SENPAI!

No instante seguinte, tinha uns três ou quatro pares de mãos a ajudarem-no a sentar-se. Taichi sentiu o corpo todo dorido e descobriu depressa que dormir no chão não estaria nos seus planos de férias tão cedo. Protestou vagamente contra os músculos doridos e olhou em volta, confuso.

- O que raios aconteceu?

- TAICHI! - um Agumon aflitíssimo atirou-se ao seus braços, antes que pudesse sequer perceber onde estava. Taichi olhou para o digimon, que quase o estrangulava com tamanho abraço, e viu-o quase a chorar. Se até ali tinha-se sentido um perfeito idiota por pensar que podia sequer viver sem ele, agora é que teve a certeza. Ele, Taichi, era um idiota chapado.

- Agumon...

- Ele tem estado aflito; não explicou nada de jeito quando lhe perguntámos o que te aconteceu... - Taichi ouviu a voz de Yamato e quase teve um torcicolo quando girou a cabeça para descobrir onde o amigo estava. Sora também estava do lado dele, para sua grande perplexidade... mas, também para seu alívio, os dois estavam muito diferentes das versões que se lembrava de ver no sonho de Dagomon. Sorriam e pareciam dar-lhe às mil maravilhas.

- Senpai, vá lá... o  que aconteceu?

- Maninho?

Viu que tanto Daisuke como Hikari pareciam impacientes por ouvi-lo explicar.

- Deixem-no respirar – Koushirou aproximou-se, num tom relaxado. Taichi olhou para ele e sorriu – A Miyako-san e o Iori-kun já destruíram a torre.

- Boa...

- Taichi – Agumon cativou-lhe novamente a atenção, com um ar ansioso – Há pouco, eu... Eu queria ter dito uma coisa. Mas não consegui.

Taichi pestanejou; o digimon parecia muito sério. Encheu os pulmões de ar e desabafou.

- Eu nunca achei que a culpa era tua. Tu ajudaste-nos a todos... Não sei por que o Kaiser faz o que ele está a fazer, mas... mas a culpa nunca foi tua.

Pôde perceber na cara dos amigos que eles estavam curiosos sobre as afirmações do seu parceiro, mas Taichi achou que podiam esperar um pouco, até saberem o motivo. Sorriu a Agumon.

- Não... Agumon, se tanto, eu é que te tenho que agradecer. A sério... obrigado.

Era um agradecimento sincero. Aquilo fez o dinossauro a criatura mais feliz do mundo.

******

Dali a pouco, Taichi teve que se desculpar a Yamato e Sora por não os ter avisado dos seus planos, deixando-os preocupados à toa. Naturalmente, todos ficaram perplexos (Hikari ficou horrorizada) quando contou que a torre não tinha sido colocada ali pelo Kaiser, mas sim pelo Dagomon, e que o monstro tinha aparecido à frente dele e de Agumon. Mas Taichi não conseguiu explicar os mistérios do mundo que visitara, porque... o estômago dele protestou com fome. Numa gargalhada, o grupo decidiu continuar o piquenique que tinha suspendido.

Taichi, porém, ainda tinha dois assuntos para tratar. O mais importante, esperava ele, podia ser resolvido muito em breve. Estavam em finais de Julho. Isso significava que, dentro de três dias, estaria para chegar o Memorial Day.

Até aquele momento, a verdade é que as novas crianças escolhidas tinham apenas contado com informações vagas e dispersas; tinham tentado, à sua própria maneira, conquistar confiança e determinação nas lutas contra o Digimon Kaiser. Mas eles não sabiam quase nada sobre o Mundo Digital. Nem sobre os Escolhidos.
Taichi tinha confiado as suas goggles, como prova de coragem e amizade. Porém, estava na hora de confiar a Daisuke a outra parte do seu legado. Mais importante talvez do que o par de óculos velhos do seu avô... desta vez, ele queria contar-lhe todos os pormenores da aventura que oito crianças escolhidas tinham tido no mundo digital, nos dias 1, 2 e 3 de Agosto de 1999. Esse era o assunto mais importante, que queria resolver com ele... e consigo mesmo.

Já quanto ao segundo assunto...

- Daisuke... posso saber que raio de história é essa que teres beijado o V-mon!?

Daisuke corou como um pimentão. Já o pobre digimon, esse, mostrou-se enjoado e garantiu que tinha sido um simples acidente.

O grupo, enfim... largou à gargalhada.

Fim

Notas:
“Oniichan” é uma forma afectiva que os japoneses usam para chamar o «irmão mais velho»; às vezes troco para «maninho» para tentar evitar repetir sempre a mesma palavra.
“Ittekimasu” tem difícil tradução para português, mas é o que os japoneses dizem quando saem de casa e se despedem da família.
“Itterashai” é a resposta que a família dá quando alguém se despede com “Ittekimasu”.
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Re: [Inscrições] Concurso de one-shots - Memorial Day 2013

Mensagem por Mimi-chan em Seg Jul 22, 2013 11:06 pm

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Re: [Inscrições] Concurso de one-shots - Memorial Day 2013

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