Digimon Synthesis

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Mensagem por LANGLEY002 em Qua Nov 22, 2017 1:34 pm

Capítulo 20: As Aventuras de Sachi.

Pediram a Sachi que seguisse a rota sob qualquer circunstância. No outro momento, todos eram jogados para fora. O medo invadiu a menina quando viu o cavaleiro negro balançando aquelas espadas vermelhas e brilhantes. Daiki foi o primeiro a sair para fora da rota, depois foi Mako. A viu rodopiar tentando agarrar SlashAgumon, ferido pelo mascarado.

Havia apenas Daniel, e Sachi tentou ir na direção do menino, mas antes que pudesse, o vulto negro passou muito próximo de seu corpo. O ar se tornava frio na presença dele e uma voz baixa começava a sussurrar em sua cabeça. E ainda assim, ainda que fosse tão assustador, havia uma pessoa agarrada a ele, pouco ocultada pela capa.

Era uma menina também. Os olhos das duas se encontraram. Sachi vibrou ao fitar diretamente aqueles olhos estranhamente púrpuros.

No outro segundo estava sozinha. Daniel desaparecia, a evolução de Dorumon toda embolada numa luta corpo a corpo com o mascarado.

Sachi cerrou os olhos quando a placa de computador se aproximou, mas, no momento em que uma descarga passou pelo seu corpo a fazendo se arrepiar e sentir cócegas, abriu, e já não havia placa. Passara por ela. A rota a levava em direção a um globo. Caiu por entre a lua e os dois sóis que pareciam se distorcer a todo momento. Um buraco se abriu no caminho, cheio de escrituras luminosas que ela jamais poderia entender. Ao passar por ele, atravessou as nuvens de um planeta, viu ao longe uma cidade e imaginou que estava sendo levada para lá.

Nesse momento, porém, um grupo enorme de estranhos dragões sem as pernas traseiras passaram por ela. Tinham, no lugar dos braços, garras mecânicas. Capacetes de metal cobriam as cabeças. Um outro, muito semelhante a uma serpente, passou ondulando o corpo. Os olhos, no escuro de um elmo de osso, a encontraram. Entre os chifres deste, havia um menino. Teve certeza.

Ele apertava na mão um aparelho parecido com o de Mako. Um Digivice, um Digivice de verdade. Era um tamer. Se animou, mas antes que pudesse acenar para o menino, uma rajada cortante de vento invadiu a rota e a jogou para algum lugar. Para qualquer lugar. Um lugar desconhecido em que se perderia.

Desabou sobre a copa das árvores de um vale. Deslizou para uma folha resistente e comprida, muito estranha, talvez algum tipo de coqueiro que havia naquele mundo. Depois caiu em um cogumelo gigante e colorido e noutro e noutro, até deslizar pelos menores e acabar deitada no chão. A barriga aparecendo, os óculos ao lado do rosto, o cabelo emaranhado e já quase completamente solto do rabo de cavalo. Ficou olhando para os borrões verdes, vermelhos, azuis, multicoloridos. Folhas, cogumelos, cristais, céu, cogumelo. Cogumelo vivo.

Sim. Vivo. Um cogumelo com olhinhos bem pretos aparecendo por debaixo do píleo roxo. Sachi imediatamente puxou os óculos e ajeitou no rosto. Um sorrisinho surgia no cogumelo. Não era bom sinal, certamente não. A menina se levanta e sai correndo no meio dos cogumelos, alguns deles brilhando em azul, como se cobertos por neon.

Vai se desviando de qualquer um, com medo de uma risada macabra e infantil, como aquelas dos filmes de terror, surgir de algum daqueles cogumelos. Como saberia quais deles eram fungos e quais deles eram Digimon de verdade. Enquanto avançava pelo vale, ouvia os estalos. Olhou para trás e viu o cogumelo correr sobre botas roxas, sempre jogando cogumelos menores que explodiam assim que se chocavam com algum objeto sólido.

Segurou a armação dos óculos para que não caísse e acelerou o passo. Se meteu no meio de um amontoado de árvores e foi saltando pelas pedras, até se escorregar e ir deslizando por uma enorme pedra lisa. Caiu com os pés num pequeno córrego e a água se espirrou por cima do tênis. Lá em cima, os estalos continuavam, mas sabia que não havia mais como ele a alcançar.

Continuou com mais calma. Os músculos da perna pareciam estar em brasa, o peito doía como nunca e os pulmões pareciam estar prestes a estourar acabando com as suas costas. Talvez por isso, pausasse a cada minuto para se encostar numa árvore. Numa dessas, percebeu que o tronco seco tinha olhos muito azuis. Ele abriu a boca para resmungar, mas Sachi já havia desaparecido no meio de tantas árvores.
Tanto tempo fugindo, nem tivera tempo de se perguntar que horas eram. Sabia que os celulares não funcionariam ali dentro, mas não esperava que o mesmo acontecesse com um relógio de pulso. Os ponteiros dele se moviam de forma descontrolada. A menina se encostou numa parede de pedra e foi escorregando, olhando para o céu escuro.

Ela estava com frio, fome e havia se machucado tanto enquanto fugia. Disse que queria se tornar mais forte que a Mako, mas duvidava que a Mako estivesse chorando naquele momento, como ela começou a fazer quando se deu conta de que estava sozinha, sem a mãe, o pai ou qualquer outra pessoa que a auxiliasse a viver.

Chorando ali, abafando a voz nos braços e joelhos, dormiu com o rosto todo úmido. Quando acordou, era observada bem de perto por três Digimon. Os pés patinaram na tentativa de se levantar, mas um deles, um filhote de cachorro, acenou com as luvas para que ela ficasse calma. Ele andava sobre dois pés, igual a uma pessoa, e tinha pelos azuis, um focinho branco tão bonito, uma faixa vermelha e luvas de boxe com tanto estilo.

Os olhos de Sachi brilharam e ela pulou sobre o Digimon. Com tanto medo quanto ela teria numa situação contrária, ele reagiu. Acertou logo um gancho contra o queixo dela. A garota despencou para trás e ele abriu a boca surpreso e arrependido.

– Gaomon, pega leve. – Dizia outro.

A menina se levantou com a mão no queixo, os óculos dependurados no nariz. Olhou para o grupinho. O segundo era um estranho animal vermelho de longas orelhas, todo rajado de azul. Quando viu a menina pendendo em cima deles, os pelos se eriçaram e a cauda se separou em nove e cada uma delas se parecia com uma pena. Começaram a faiscar.

– Mas você disse... – Gaomon levantava a mão para sinalizar para o parceiro, mas ele já tinha soltado uma descarga elétrica. Sachi caiu de novo, dessa vez desacordada.
 




 
 
Abriu os olhos. Tudo era um borrão. Maldito astigmatismo. Tateou em busca dos óculos e para sua surpresa, os encontrou bastante limpos. Se sentou e olhou em torno. Parecia estar numa espécie de quarto, numa cama feita ali no chão. Não viu mais ninguém por perto.

Se levantou e foi abrindo a porta de correr bem devagar. Apontou o rosto para o corredor. Silêncio absoluto. Foi pé por pé até sentir um cheiro de sopa que fez seu estômago roncar.  Isso a denunciou.
Um animal parecido com um filhote de anta veio flutuando, a cabeça coberta por uma placa de metal com gravuras. Os olhos grandes dele pareceram se alegrar ao ver que ela estava de pé.

– Oi. Eu sou Tapirmon.

Sachi não sabia se deveria ou não responder. Começou a analisar o Digimon. Os pequenos marfins do lado de sua boca, as pernas traseiras inexistentes que deram lugar a uma nuvem de fumaça, as orelhas cheias de pontas.

– Está tudo bem? – Esticou o rosto. – Que tipo de Digimon é você?

– O-oi. Sim. Bem. – Balançou a cabeça. – Que tipo de Digimon? Na verdade, eu não sou um Digimon.
Rostos assustados surgiram por todos os lados do corredor. A maior parte deles, para a menina, não seriam difíceis de se confundir com apenas amontoados de pedra. Os Digimon de olhos amarelos se aproximavam hesitantes. Sachi começou a se encolher, mas logo Gaomon estava ao seu lado junto do Digimon vermelho de antes.

– Gaomon, Elecmon. –  Disse Tapirmon. –  Que bom que voltaram.

Gaomon balançou a cabeça.

– Encontraram algum disco?

– Não. – Elecmon parecia bastante desanimado.

Gaomon olhou para os Digimon pedra que os cercavam.

– Gotsumon. – Disse. – A humana não fez nada de errado.

– Mas é humana! – Gritou um deles.

– E o que tem?

– Imagina se os Generais soubessem que há uma humana aqui.

– Seria pior se soubessem sobre o Terriermon.

Sachi percebeu que havia escutado aquele nome antes. Foi buscando em sua mente. Se encontrou na noite em que DarkTyrannomon atacou a cidade. Quando ajudou Mako e SlashAgumon a se esconderem, ficou sentada na porta do banheiro enquanto a amiga tomava um banho. Quando ela saiu, começaram a conversar sobre as coisas que haviam acontecido, sobre Daniel e Daiki também estarem envolvidos com os Digimon.

Mako falou sobre um Terriermon. Era o Digimon que eles procuravam, afinal. Mako também disse sobre a evolução dourada dele para afastar Medusamon. E agora era ela, dentre tantos, a encontra-lo.

– O Terriermon está aqui?

Todos convergiram os olhos em cima da menina.

– Você conhece o Terriermon? –  Perguntou Tapirmon.

Levou a mão aos lábios. Acenou negativamente com a cabeça.

– Não. Mas a minha amiga, a Mako, conhece. Ela veio pra esse mundo pra salvar o Terriermon da Medusamon e do rei.

– Outra humana? –  Gaomon franziu o cenho.

– A última vez que houveram tantos humanos aqui, não acabou nada bem. – Mais um Gotsumon. Este gritou do fim do corredor.

– A proteção de Taomon não será suficiente se o MetalGorimon decidir nos atacar. – Disse outro, muito mais próximo.

– Isso é loucura! Quem é que poderia enfrentar Medusamon? Ela é um Digimon mega. O poder de um mega é insuperável!

– E que tipo de louco tentaria lutar com o Deus Guerreiro?

Tapirmon se virou para os Gotsumon. Um cheiro, como um misto de maracujá e ervas com um fundo bastante adocicado, começou a se espalhar numa neblina lilás. Os olhos dos Gotsumon foram amolecendo até que, deixaram de resmungar qualquer coisa. Pararam com os corpos de pedra completamente relaxados.

– BanchoLeomon é esse louco. – Sachi viu em Gaomon um olhar muito confiante. – Espero que sua amiga tenha a sorte de encontrar BanchoLeomon. Se unirem forças, talvez o rei finalmente seja detido.
Elecmon, porém, parecia bastante apreensivo com a ideia.

– Mas se podemos viver sem lutar, isso não é pela proteção da Ellada.
Gaomon suspirou.

– Proteção a que custo?
 
 
 
 
 
Cobriram Sachi com uma longa manta escura. A cidade toda se reuniu numa praça e a menina se impressionou: a maior parte das casas se pareciam com cogumelos, o restante lembrava muito uma casa tradicional japonesa. O Digimon que chamavam de Taomon, tinha um rosto amarelo e animalesco com orelhas e focinho de raposa. Era tão alto que a menina se amedrontava em sua presença, mas as roupas, iguais a um sacerdote do taoísmo, a fizeram ficar um pouco mais confortável.

A rua principal que ia na direção de um templo sob a formação rochosa, se abriu. Taomon ficou de frente aguardando. Uma armadura tilintava, um corpo tão sinuoso e uma trança dourada tão longa serpenteando por detrás da tiara. Aqueles anjos, completamente estranhos para Sachi, acompanhavam a mulher. Suas asas mais pareciam espadas e, na verdade, mesmo os seus braços eram lâminas. O corpo inteiro era coberto por armaduras prateadas.

– Que linda. – Esticava a cabeça acima do ombro de um Gotsumon na tentativa de ver melhor.

– Você, cuidado aí. – Tapirmon flutuou ao seu lado e começou a sussurrar.

No mesmo momento, Gaomon pressionou o ombro de Sachi para baixo e ela se abaixou. Se ocultou atrás de um Gotsumon enquanto os anjos olhavam em volta. A mulher na armadura reluzente parou e, um dos joelhos no chão, uma das mãos apoiada no outro, a espada em linha reta com o chão, abaixou a cabeça em respeito e cumprimento a Taomon.

Taomon, respondendo ao gesto, inclinou o corpo levemente depois de juntar as mãos. A guerreira se levantou com graça e sua espada se desmanchou no ar. Estendeu as mãos e um terceiro Digimon veio carregando uma almofada onde se encontrava um vaso branco todo ornamentado com desenhos azuis e ouro. Era uma mulher também, muito alta e esguia, uma roupa colante que lembrava a de uma bailarina, o rosto rosado e os cabelos cor de cereja despencando sobre os olhos. A primeira levantou a tampa daquele frasco e um cheiro de incenso se espalhou.

Taomon gesticulou e outros anjos vieram detrás dela em suas longas vestes brancas. Pegaram a almofada e levaram o frasco para trás.

– A que devo essa visita, Jeannemon?

– Venho apenas prestar honras no South Florest Temple.

Os músicos da cidade, todos com a aparência de sapos, sapos muito magros, se juntaram com os instrumentos de sopro que se enrolavam em seus pescoços. Pegaram outros instrumentos e embalaram numa música suave e agradável enquanto Taomon direcionava Jeannemon ao templo.

Os anjos, aqueles cheios de lâminas, fizeram menção de avançar junto de Jeannemon, mas foram segurados pelos anjos de túnica branca que residiam naquela cidade. Taomon balançou a mão e com isso queria dizer que Jeannemon deveria ir sozinha.

– Vem comigo. – Disse Gaomon.

A menina saiu arrastada por ele e Tapirmon. Atravessaram toda a multidão até chegarem nas árvores e cogumelos gigantes que cercavam a cidade. Continuaram até uma pequena ponte de pedra que atravessava um desfiladeiro (mais baixo que aquele que cobria o templo) até um dos andares superiores do templo.

Se juntaram num parapeito de pedra talhada e olharam lá para baixo. Os ídolos que cercavam o caminho do altar eram quase tribais. A menina se lembrou da vez em que conseguiu jogar com Daniel. Os ídolos desse templo lembravam muito aqueles do templo de adoração, os que representavam os monstros rochosos enfrentados pelo protagonista no jogo.

Seu corpo todo se arrepiou e seu coração pareceu ter um espasmo ao pensar naquele momento com o menino. Já faziam tantos anos... Na época não entendiam o sentimento daquele protagonista que atravessou o mundo em direção a uma terra proibida para salvar a amada. Hoje a menina se pergunta se não é esse tipo de sentimento que tem por Daniel.

A entrada de Taomon quebrou o seu transe. Seguiu os dois Digimon indo na direção do altar. Percebeu a enorme máquina que se deitava sobre a parede, o corpo cheio de rachaduras, os olhos buscando pelos recém-chegados. Ele oscilava, enquanto faíscas saíam de seu corpo chiado, entre a cor dourada e a cor verde.

– Terriermon? – A palavra apenas vasou da boca da menina. Gaomon tentou tapá-la com as mãos enquanto puxava a menina, toda inclinada, para trás.

Jeannemon levantou os olhos. Havia escutado. A fumaça do corpo de Tapirmon começou a cobrir todo o andar para ocultá-los. A guerreira, porém, não fez nada em relação a eles. Apenas se voltou ao Digimon caído. Foi andando devagar e se ajoelhou diante dele, pôs sua mão na cabeça do pobre guerreiro máquina injuriado.

– Taomon. –  Disse Jeannemon. –  Desculpe por demorar tanto para retornar. Estou enfrentando grande problemas na Ellada. –  Soluçou. –  Espero que os medicamentos que trouxe sejam eficientes em trata-lo.

–  Não deveria fazer isso... por mim... –  O Digimon caído tentou se mover. Gemeu de dor.

–  Talvez eu faça por mim. – Se levantou. Olhou para cima. –  Só mais uma coisa, Taomon. Peça para que levem a humana para longe. Não o Gaomon, ele será designado para o rastreamento. Os SlashAngemon receberam de algum dos vigilantes da Ellada a informação de que haveria uma humana nessa região. É sorte que ela não esteja sozinha.

– Serão os seus guardas?

– Não. Uma equipe está a caminho da cidade. – Balançou a cabeça. – Como havia um Gaomon na cidade, decidiram vir para cá escalá-lo para o rastreamento. É bem possível que Steelmon já tenha preparado um disco para retirar os limitadores da fase adulta.

Gaomon puxou a menina. Correram o caminho inverso e o cão se separou dela e Tapirmon ao atingiram a multidão. Tapirmon chamou dois dos Gotsumon e então seguiram para a floresta. Sachi mal pôde reagir, se enfiaram fundo na mata, para longe da cidade.
 
 
 
 
 
Gotsumon acendeu uma fogueira. Tapirmon observava a chama muito pensativo. A menina se espreguiçou e jogou a manta para trás. Ficou encostada no tronco de árvore.

– Talvez você seja o meu parceiro Digimon... – Sibilou a menina.

– O que? – Tapirmon a fita com estranheza.

– Não é nada.

Os dois sóis se escondiam por detrás das montanhas e das árvores. No vale, escureceu rápido. Mais uma noite estava chegando. Sachi não duvidava que Mako estaria bem ao lado de SlashAgumon, então se prendeu a pensar na situação de Daniel.

Os olhos brilhantes da outra menina. Era como se a continuasse encarando ainda agora. Foi capaz mesmo de sentir o frio que emanava pela máscara do Digimon que os atacou em sua entrada no Mundo Digital.

– Sabe, dentro da Ellada...

Sachi levantou o rosto.

– ...todos nós nascemos com nossas funções determinadas. Se eu nasci para cultivar alimentos, farei isso minha vida toda, como uma Palmon. – O rosto de Tapirmon se abaixou iluminado pelo fogo. – Ou eu posso ser um construtor, como os Gotsumon. Talvez, com alguma sorte, eu nasça na nobreza e ainda assim terei minha vida decidida. O Gaomon é um rastreador. Ele gostaria de ser um lutador e por isso está sempre treinando e carregando suas luvas.

– E você?

– Eu cuido dos Digimon cansados e tristes. – Apontou para a própria cabeça. – É um trabalho legal, mas... Eu fico imaginando como seria se eu pudesse ir ao lugar que quisesse e fazer o que quisesse naquele momento, entende?

Sachi balançou a cabeça.

– Dizem que vocês humanos podem fazer isso, é verdade?

Sachi não sabia o que responder. Embora as pessoas tivessem alguma liberdade em seu país, nem sempre era assim. E mesmo em seu país, haviam problemas. Como menina e como criança, sempre foram os pais a decidir as coisas por ela e eram também eles que a pressionavam para tirar notas cada vez maiores para conseguir um bom colégio para o secundário que logo chegaria e depois uma boa universidade. Mas não sabia bem o que queria fazer, só sabia que a mãe a enxergava como médica.
Ela nunca foi tão boa quanto o Daiki. Não sabia como o menino suportava aquilo tudo.

Abriu um sorriso.

– Sim. E quando a Mako derrotar o rei, vocês também farão o que quiserem. O Gaomon vai poder se tornar um lutador e você ir onde quiser e quando quiser.

O semblante de Tapirmon mudou, como se a menina o tivesse animado. Naquele momento ela pensou que, talvez, ele fosse realmente o parceiro dela. Estendeu a mão para ele.

– Quer ser o meu parceiro?

Mas um corpo saltou sobre a fogueira. Os Gotsumon caíram para trás assustados e Tapirmon puxou a menina para que fugisse. Gaomon estava junto dos anjos, um olhar bastante triste. As luvas não estavam em suas mãos. Mãos feridas e calejadas de tanto treinar.

– Gaomon... – A menina saiu arrastada. O cachorro abaixou a cabeça enquanto três daqueles anjos partiram na direção de Sachi.

– Sachi, rápido. Eles são SlashAngemon. Eles são muito fortes.

Tapirmon empurrou a menina. Uma neblina começou a se espalhar pelo local para confundir os anjos, mas como se pudessem ver através daquilo, um dos SlashAngemon girou o braço e cortou o corpo de Tapirmon.

Sachi, vendo a cena, escorregou. Girou o corpo e tentou se levantar e correr na direção de Tapirmon, mas o corpo do pobre Digimon já se desmanchava. Gritou. Gaomon gritou também. O cachorro pulou de encontro a Tapirmon. Os dois brilharam e uma força fez com que os SlashAngemon se afastassem.

Um homem lobo azul saiu de dentro da luz, o peitoral forte a mostra e uma capa cinzenta balançando. As bordas e as mangas da roupa pareciam se transformar em fumaça e neblina. Apertou a espada e esticou o rosto, coberto por uma faixa vermelha. Avançou contra os anjos balançando a lâmina.
O som de metal em atrito, as faíscas. Aquilo se repetiu numa sequência de ofensivas do homem fera contra os anjos que o cercavam. Ao perceberem que a habilidade dele com a arma era grande, os três se afastaram. Ele, sabendo que não poderia vencer todos os três sozinho, se virou, embainhou a espada nas costas e pegou Sachi com as mãos grandes de guerreiro.

Saltou a alto o suficiente para ir acima das árvores e continuou o caminho de galho em galho, de pedra em pedra. Encontrou uma cachoeira e desceu pelas pedras lisas. Procurou por algum lugar onde pudesse esconder a menina e achou uma gruta. A empurrou com as palmas da mão.

– Vá. – Disse. – Nós nos veremos de novo!

Tornou a saltar.

– Espera!

Parou próximo da queda da água.

– Como eu devo te chamar agora?

– Eu sou... – A sua voz não era uma. A sua voz eram duas vozes entrelaçadas. Escutou Gaomon e escutou Tapirmon. – DormioGaomon.

A silhueta dos anjos cruzou os céus acima da cachoeira. A menina se encolheu na entrada da gruta e DormioGaomon continuou o seu caminho. Agora segurava uma pedra envolto na manda que deram a Sachi para enganar aos anjos.
 
 
 
 
 
Sachi esfregou os olhos. Os sóis ainda não haviam nascido e provavelmente demorariam muito para fazê-lo. Ouviu o barulho de um trem passando nas proximidades, o motivo de ter acordado tão de repente e assustada. DormioGaomon não estava por perto.

Soube que teria de continuar. Foi caminhando, os pés afundando na água fria. Havia um caminho para além dos vales. Conseguiu avistar uma trilha ao pé de uma montanha. Tentou ir naquela direção quando escutou um rugido ao longe. Se apavorou e apertou o passo, porém, caiu. Torceu o pé. Urrou de dor.
Ao tentar mover o pé, percebeu a razão: havia o enfiado por debaixo de duas pedras. Não conseguia se soltar. Alguma coisa se movimentava na floresta. Mas o seu pé doía tanto. E as árvores e arbustos começaram a balançar. Não importava o que fizesse, o pé continuava preso.

Não queria estar sozinha. Queria que Daniel estivesse com ela. Se ele estivesse, a daria forças para continuar. A ajudaria a se soltar. Teria impedido que os SlashAngemon fizessem qualquer mal ao Tapirmon. A salvaria, com toda a certeza.

A criatura finalmente chegou.

– Jeannemon...?

Jeannemon baixou os olhos sobre ela. Num segundo, a espada estava materializada nas mãos da Digimon. Sachi estremeceu. A mulher rodopiou a espada e mandou um golpe com a lâmina na sua direção.

O ar frio se movimentou em espiral contra o rosto dela, quase levando os óculos. Tudo parou, silencioso, imóvel. Abriu os olhos.

Jeannemon a encarava de perto. As pedras que prendiam o seu pé estavam em pedaços e, sob o toque de Jeannemon, a dor nos tornozelos desapareceu. A Digimon se levantou e se virou. Depois, pressionando os pés, dobrando os joelhos, impulsionou-se. Sua força era tamanha que com facilidade atravessou a montanha ao leste.

Sachi, mais calma, se levantou. Nenhum sinal dos SlashAngemon. Sem entender Jeannemon, continuou seu caminho até subir a montanha. Descansou um pouco antes de chegar ao planalto e encontrar uma estação de trem no meio do nada.

Um trem parou. Com certeza não um trem normal, pois este tinha olhos e boca. Quando a menina entrou, escutou mais alguém e se escondeu atrás dos bancos.

– Você pode ir, Twilimon. – Uma voz feminina. – Chego a Cidadela em pouco mais de uma hora. Eu vou ficar bem.

Era aquela respiração nada natural, aquela atmosfera fria que fazia gelar a própria alma. Se inclinou e viu o mascarado imergindo na sombra de uma menina. Os olhos púrpuros encontraram com os de Sachi assim que o monstro já havia desaparecido por completo. O rosto, antes suave apesar das escoriações e olheiras, se distorceu.

Sachi se levantou e a encarou de frente.

– Você... – Cerrou os dentes. – O que você fez com o Daniel?

A outra apenas gemeu sem saber como lidar com Sachi. Foi se afastando, os braços retesados e o peito muito magro se expandindo e se contraindo muito rápido devido a uma respiração nervosa. A menina era alta para a idade que aparentava ter e estava tão magra que Sachi a imaginou voando caso desse um sopro.

Manteve na cabeça que era mais forte que a outra. Foi avançando.

– Não... chegue... perto... de... – Sachi a estava quase tocando. – MIM!

As duas deram um encontrão. Sachi caiu sobre o carpete que cobria o vagão, enquanto a outra menina batia as costas contra a porta que ficava entre um vagão e outro. As duas abafaram gemidos de dor. Com a vantagem de ainda estar em pé, a menina se jogou sobre Sachi e fechou as mãos no pescoço dela que ficou se debatendo.

– O que você fez... com ele?

E chutou-a na barriga. Se impressionou com a facilidade que teve para jogar para longe um corpo tão leve. A viu cair sentada.

– Não é óbvio? – Forçou um sorriso.

Sachi apertou muito os punhos antes de se levantar e pender contra a menina magricela. Deu-lhe logo um soco na bochecha antes de receber um tapa forte no rosto. Não sentiu nada no momento, apenas ouviu o estalo. Depois, uma ardência a distraiu o suficiente para que a menina cruzasse as pernas em torno de seu pescoço.

– O que você está... fazendo... sua... – Sachi começou a sentir a falta de ar. Todo o seu corpo parecia ir relaxando, formigando. – ...maluca...!

Deu uma sequência de socos contra as pernas da garota. Percebeu os espasmos de dor que ela recebia e então, vendo um rasgo que havia na calça, encontrou uma ferida. Apertou a mão naquela região e a menina a soltou e se afastou num urro de dor.

Pararam as duas, arfando.

– Eu vou... acabar com você! – Sachi passou a mão pelo pescoço muito dolorido. A voz quase não saía.

– Nunca... mais... toque em mim! – Fechou a mão na parte superior de um banco. Arrastou o corpo naquela direção e, usando o objeto como um apoio, conseguiu se levantar. Mas não conseguiria chegar até Sachi apenas com as próprias pernas.

Um silêncio quase absoluto, entrecortado apenas pelos solavancos do trem, pelo som continuo das rodas metálicas girando pelos trilhos e pelos apitos que indicavam a proximidade de uma cidade.

– Se fosse você... – Tossiu. – ...desceria agora.

– Você não me diz o que fazer!

– A outra parada é a Cidadela. Você estaria morta antes de sair desse Trailmon.

Sachi estremeceu. Se lembrou dos SlashAngemon que a perseguiram na floresta.

– Isso ainda não acabou. – Atravessou o vagão até as portas laterais. Um ringido insuportavelmente agudo indicava que o trem estava parando. – Se você machucou o meu amigo... eu vou... eu vou...

A porta se abriu. Sachi não conseguiu completar o que dizia, apenas desceu.

– Ele... – A menina esticou a mão. Correu até a porta. – Espera! Qual é o nome dele?

Mas Sachi já estava distante na escuridão da estação. As portas do Trailmon se fecharam em seguida. O Trailmon atravessava a cidade pelo meio. A menina ali dentro olhava para o outdoor animado que havia em cima da estação. Uma maçã aparecia e recebia uma mordida. Aquilo se repetia, estava em loop.
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Mensagem por LANGLEY002 em Qua Nov 22, 2017 1:36 pm

Nota: os acontecimentos do capítulo 20 antecedem os eventos dos capítulos 17, 18 e 19.
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Mensagem por Lawliet em Qui Nov 23, 2017 3:03 pm

Achei deveras interessante o capítulo, Pines. Principalmente por ser uma prequel dos capítulos 17 à 19. Gostei de ver a personalidade da Sachi mais desenvolvida, apesar de eu não ser o maior fã dessa personagem jfkldsfjds'

A sua descrição está ficando bem melhor e mais agradável. Fiquei feliz por vc ter feito o espaçamento necessário, ajudou muito na leitura, pois ficou mais fluída.

Não tenho muito o que comentar. Espero ansiosamente pelo capítulo 21 ou pelo verdadeiro capítulo 20! Hehe.

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Mensagem por LANGLEY002 em Qui Nov 23, 2017 4:28 pm

Lawliet escreveu:Achei deveras interessante o capítulo, Pines. Principalmente por ser uma prequel dos capítulos 17 à 19. Gostei de ver a personalidade da Sachi mais desenvolvida, apesar de eu não ser o maior fã dessa personagem jfkldsfjds'

A sua descrição está ficando bem melhor e mais agradável. Fiquei feliz por vc ter feito o espaçamento necessário, ajudou muito na leitura, pois ficou mais fluída.

Não tenho muito o que comentar. Espero ansiosamente pelo capítulo 21 ou pelo verdadeiro capítulo 20! Hehe.



Caaaaaaraaaa...
Ele não gosta da Sachi.

Acho que não me preparei psicologicamente para o momento em que alguém diria isso da menina-que-na-maior-parte-do-tempo-é-alívio-cômico logo agora que ela decidiu fazer algo mais além de ser alívio cômico.

Isso me dá uma curiosidade. Que personagens exatamente você tem gostado no decorrer da fanfic até o momento? 

De qualquer forma, a Sachi, quando não está fazendo ninguém rir, é quem separa as brigas e dá os sermões. Foi uma grande quebra mostrá-la tão agressiva nesse último capítulo. Eu tento demonstrar que as pessoas são complexas e contraditórias. Se ela é apenas o tipo brincalhona que está sempre fazendo rir e impedindo os outros de saírem no braço, ao mesmo tempo, os sentimentos dela por Daniel e o medo de perder o amigo, a fizeram partir para cima de Misaki sem pensar duas vezes.

A Misaki tem mais destreza e, apesar de estar ferida por causa da perseguição dos DeathMeramon e estar cada vez mais magra, conseguiu conter a outra sem precisar chamar pelo Twilimon. Porém ela não poderia manter aquela briga por mais tempo.


Nota: Cuidado ao falar da Sana e da Misaki. Tenho uma queda pelas duas oisahfiosafoiajs
LANGLEY002
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Digimon Synthesis - Página 14 Empty Re: Digimon Synthesis

Mensagem por LANGLEY002 em Sab Nov 25, 2017 4:34 pm




Capítulo 21: Grademon: a Vontade de Ruramon Despeja-se Sobre a Terra!


BanchoLeomon chegou bem pela manhã. Nenhuma das crianças estava acordada ainda. Mas a princesa já havia se desvencilhado dos cobertores e Dorumon acordara assustado com a barulheira que faziam nos andares debaixo. Ao descerem, encontraram um grupo de Digimon de todos os níveis, tipos e tamanhos. Arrastavam mesas, marcavam mapas, penduravam informações em murais e sempre retornavam ao homem leão para discutir uma dúvida.

– Dorumon. – BanchoLeomon puxou a aba do chapéu, depois cruzou os braços. O sobretudo, apenas colocado sobre os ombros, balançou com os movimentos abruptos.

 – BanchoLeomon!

A princesa escalou as costas de Dorumon se agarrando aos pelos. Ele fez uma careta ao sentir as puxadas. Logo ela estava no topo da cabeça dele, o rosto entre as orelhas pontudas, de frente para BanchoLeomon.

Um rosto surgiu por detrás de BanchoLeomon. Olhos grandes e completamente negros, um botão de flor preto sobre a cabeça. Se inclinou, o decote de uma camisa de um uniforme sailor que fora cortado, deixando nua a barriga. A saia preta, toda cheia de rasgos e sustentada na cintura por vários cinturões, tinha uma textura de couro, assim como a bota e as luvas.

– Lunamon! – Gritou ela.

– Eu te conheço? – Lunamon estreitou os olhos.

– Bem. Eu sou BanchoLillymon. – Levou o dedo até os lábios, esfregou por um momento. – Na época eu ainda era uma Lalamon. 

– Lalamon! – O rosto da princesa se acendeu. – Que bom que você não se transformou numa daquelas Servantmon.

– Eles tinham outros planos para mim. – Abriu um sorriso torto, como se estivesse nervosa. – Me acusaram de ser parte de algum grupo de terroristas contra a Ellada. Eu fui levada para a ZSC onde tentaram me arrancar informações. Acontece que a base que usaram ficava além da Turk Woods, bem próxima do Reino dos Mortos. GranDracmon os atacou e eu consegui fugir.

– E como você ficou... Assim?

– Você diz, assim? – A fada foi apontando para as roupas pretas. – Eu me juntei a um grupo nas ruas da Ellada para sobreviver. Depois eu fui para o deserto e lutamos num torneio no Coliseu.
Dorumon torceu o nariz. 

– O Coliseu dos DeathMeramon?

– Sim. – Ela riu. – São malucos, mas eles sabem o que é música e briga de verdade. – Desceu as mãos sobre os ombros e peito de Leomon. Começaria a massagear, mas ele, num movimento leve, afastou as mãos da fada. – Foi lá que conheci o BanchoLeomon. Eu fui derrotada por ele na final do torneio e então aceitei ser treinada por ele.

O homem fera solta um longo suspiro.

– Na verdade, você seguiu o nosso grupo por dias pedindo que eu a treinasse.

– Não é assim que eu me lembro das coisas.

– Mas parece ter passado tão pouco tempo desde que atacaram o palácio. – Os olhos da princesa foram se abaixando. – Você é um nível mega, não é? Como conseguiu fazer isso tão rápido?

– Na verdade é bastante tempo. – Foi com o indicativo da mão direita puxando os dedos da outra mão, como se estivesse contando. – E eu só soube sobre você depois que foi para o Mundo Real. Eu tive bastante medo do que poderia acontecer.

– Yare yare! – BanchoLeomon abanou com a mão. – Mais tarde teremos uma longa conversa, Dorumon e Lunamon. A chegada dos humanos fez com que mudássemos todo o nosso planejamento.

– Eles por acaso são um problema? – Dorumon chegou mais perto.

– Não. – Abaixou a aba. – Eles são a nossa chance contra os generais. Não importa o que a Ellada espalhou, eu sei que não existe nada mais poderoso que o elo entre um tamer e seu Digimon.
Amélie, que havia acordado antes das outras crianças, observava por detrás de uma porta dupla. Apertou a mão entre os seios e suspirou.
 
 
 
 
 
 

Sana se inclinou sobre os painéis. Nunca havia visto nada igual. Não de perto ao menos. Quando esteve ali pela última vez, era apenas uma criança. Mal tivera tempo de começar o seu treinamento. As coisas já iam bastante mal. Quando as nações se uniram para derrubar a Morpheus, ela perdeu tudo. Era a única família que tinha.

Os dedos se moviam no ar como se digitassem, a mão estava coçando. A coceira era a sua vontade de começar a fuçar naqueles painéis. Noriko entrou nesse momento. As portas automáticas de metal fizeram um barulho e a mulher entrou num traje todo preto, como se fosse de algum tipo de força especial pronta para fazer um assalto arriscadíssimo durante a noite.

– O que acha, Sana?

A coreana se virou. Seguiu cada curva do corpo da outra. Os olhos brilharam, o rosto esquentou, o corpo todo formigou.

– O que eu acho? – Voltou-se aos painéis imediatamente, o pescoço encolhido e uma expressão de extrema vergonha no rosto. Começou a puxar a gola da camiseta como se precisasse de ar. – Depende. O que você vai fazer com isso?

– Ah. Por hoje, apenas procurar por aquelas crianças. O Liam disse que a armadura de kevlar ficará pronta logo. – A moça ouviu os passos. Logo as mãos de Noriko pousavam sobre seu ombro. – Precisamos estar prontos para o conflito.

– O conflitoooooooo? – Os ombros retesavam.

– Sana, você está bem?

– Eu nunca disse que queria algo como... você sabe...

– O que?

– Não é nada. Nadanadanadanadanada! – Bateu o rosto contra o teclado. – Só fiquei acordada a noite toda, sabe? A noite toda. Estava assistindo um anime.

– Ah. Faz tempo que não vejo um anime.

– Então você vê a-animes, Nori-chan? – Vibrou.

A porta de metal se abriu novamente. Um rapaz gordinho de pele dourada e cabelo curtinho veio na frente. Tinha uma camiseta verde oliva e um bermudão jeans. Atrás dele vinha uma outra moça, muito provavelmente da idade de Sana. Era muito morena, o cabelo bastante liso. Vestia um macacão sobre uma camiseta branca e All-Stars azul.

– Oh... Nasrin. – A menina acenou quando ouviu a voz de Noriko. – Hunk.

Os dois pararam lado a lado.

– Os velhos estão te chamando. – Nasrin deu um risinho. – Você e a Sana. Querem saber como andam as buscas pelo paradeiro da Capitã Amélie.

– Talvez eu devesse me conectar Nerv Nexus. – Noriko cerrou os punhos. – Eu poderia encontra-la se fizesse isso.

– Você não pode! – Sana agarrou o braço da mulher. – É perigoso usar o Nerv Nexus agora. Se algo der errado, você não poderá ajudar a Mako, o Daniel e o Daiki. Eles precisam da sua ajuda agora que estão na rede. Nós estamos quase restabelecendo a conexão.

Balançou a cabeça de acordo.

– Ei, Sana. Quer ir com a gente num café depois que falar com os velhos? – Nasrin sorriu para a coreana.

– Eu não sei. Eu tenho que...

– Você pode ir. Só procuraremos pelas crianças durante a noite.

– Mas é que...

– Vai ser divertido. – Nasrin chegou mais perto. – Afinal, sua casa fica em Akihabara, não é? Eu gostaria de conhecer.
 
 
 
 
 
 
Haviam muitos seguranças caídos pelo corredor. Isso fez com que o homem de meia idade estremecesse ao sair do corredor. Os seguranças que vieram com ele levantaram suas armas. Avançaram devagar em direção à sua sala.

Quando chegaram na porta, haviam mais dois desacordados. Atrás da mesa havia uma cadeira de couro. Ela estava virada para as janelas, como se, seja quem estivesse ali, observasse a cidade se aproveitando daquela vista, daquela posição e altura. E ele riu. Foi um riso calmo e demorado.
Os seguranças apertaram a arma e o homem deu um passo à frente.

– Se levante devagar, erga as mãos, se vire e se identifique.

Mais um riso.

– Faça o que eu digo ou darei ordem para que atirem.

O riso só se fez aumentar. Logo era uma gargalhada alta e exagerada.

Os gatilhos estralaram, os canos se acenderam e os projéteis saíram em série na direção da cadeira. O objeto rodopiou e alguém saltou e deslizou sobre a mesa. Papéis, pastas, canetas, monitores, teclado, tudo para o chão. O primeiro segurança perdeu a arma no primeiro golpe, sendo imobilizado de frente para o outro e o homem que protegia, os braços nas costas.

O outro hesitava em atirar, mas o homem gritou com ele, o fazendo levantar a sua arma.

– Sabe, amigo. Cortisol.

Um disparo, dois disparos. Os tiros acertaram na parede atrás e na janela. O vidro estilhaçou. O segurança largou a arma.

Logo após isso, estavam os dois desacordados no chão. O loiro guardava uma pistola de formato estranho, o homem foi se afastando, derrubando o abajur e amassando as plantas que faziam a decoração do local. Os olhos muito perturbados e trêmulos.

– L-Liam!

– É velo, prazer em rever você também. – Estava prestes a encurralar o outro numa parede quando este encontrou o teclado e quebrou contra a cabeça de Liam. O loiro deu um grito de dor e balançou. Parou inclinado e ficou esfregando a cabeça. Limpou a testa, onde o sangue escorria e meteu um empurrão no peito do homem. – Isso dói, seu estúpido! Quer que eu te bote pra dormir que nem fiz com os outros?

– O que você quer aqui? 

– Eu queria saber o que faz aqui, Satoshi. – Pegou uma das pastas que encontrou no chão. – Sabe, existe alguma coisa muito errada com essa divisão do governo. E então eu percebo de repente que um dos analistas da Morpheus está metido com a segurança nacional. Não parece tudo uma puta conspiração?

– Olha, eu só estou trabalhando, ok? – Ergueu as mãos. – Eu brincava com você quando você era criança. Eu cuidava de você. Não lembra?

– Ah, me poupe Satoshi. Você sabe que está inventando e que nunca chegou perto das crianças da Morpheus. – Abriu o envelope. – AISA, a deusa do destino, hum? Uma força capaz de determinar o rumo da vida das pessoas, não é? 

– Achei que concordasse com isso! Os Digimon destruíram tantas vidas. Eles levaram o seu irmão, eles levaram as outras crianças e a Capitã Amélie foi a única a retornar. Mas mesmo assim, mesmo ela, não conseguiu se recuperar do que ela viu.

Liam suspira.

– É. Mas existe uma outra versão dessa história, até onde eu saiba. – Depositou o envelope sobre a mesa. Pegou Satoshi pelo colarinho e o ergueu contra a parede. – Mas ainda faltam muitos detalhes. Uma pessoa como eu, pessoas como aquelas da Morpheus que nunca estiveram metidas com o AISA, podem ver essa falta de informação como furos de roteiro, sabia? Então eu gostaria que você me ajudasse a esclarecer tudo isso.

– Olha, Liam, eu te ajudaria, eu juro! – O rosto se retorceu encolhido contra a superfície da parede. – Mas eu não sei de nada. Você deveria procurar o Starr.

Liam solta os dedos da camisa de Satoshi que despenca no chão, sentado. Quando o loiro se vira, ele vai se arrastando em direção a mesa. Estava perto de pegar o envelope quando é atingido por um soco e caí de novo.

– Nossa, eu já ia me esquecendo. – Pegou o envelope. – E eu espero que você saiba o que fazer com o AISA. Nós temos uma garota genial que pode expor tudo o que você tem baixado pela internet. Pode não ser um crime tão grande, mas o que aconteceria se você tivesse a reputação manchada, não é mesmo?
 
 
 
 
 
 
Sana colocou a chave. Girou e escutou o ferrolho se movendo. Nasrin já ia entrando quando Lopmon saltou no ombro de Sana e ficou olhando para o céu com espanto. A moça, como se visse pelos olhos do Digimon, também ficou ali, imóvel. Franziu a sobrancelha.

– O que foi? Estão bem?

– Ligue para a Noriko. Diga que ela vai ter que procurar as crianças sem mim.

– Por quê?

– Porque nós duas vamos ter que cuidar de um imprevisto. – Vasculhou o bolso do short e puxou um Digivice todo azul, as bordas que circulavam o visor eram rosas. – Lopmon! Hagurumon! Agora!

O Digimon engrenagem saiu da escuridão do apartamento, seu corpo se desmanchando num raio de luz assim como o do coelho marrom. Os dois raios foram em direção ao céu serpenteando e se cruzando em espiral até se unirem. Sana se agarrou no parapeito e subiu. Nasrin a tentou segurar num momento de pânico, mas a garota já havia saltado.

Da luz surgiu uma máquina, um robô enorme com cor de ferrugem. Um compartimento se abriu em cima e, voando por debaixo do andar do apartamento, conseguiu fazer com que Sana caísse ali dentro. A capsula se fechou e uma voz ecoou por algum alto-falante.

– Rápido, Nasrin! Fale com a Noriko, pegue o Hawkmon e venha atrás de mim. Não sei se nós três poderemos parar o que está vindo sozinhos.

O mecha saiu acelerado, deixando apenas um rastro de luz enquanto subia para atravessar os céus. Lá dentro, Sana esbravejou.

– Que palhaçada é essa? Que cor é essa? Mudem isso!

Uma luz atravessou a lataria da máquina que ficou em tons escuros de azul metálico, com exceção dos contornos que haviam nas proteções, que ficaram rosa.

– Ai! Sempre quis fazer isso! Eu sou a própria D.Va agora! – Apertou as mãos nos controles. – Vamos. Isso deve ser exatamente como jogar videogame!

“Não se preocupe. Nós estamos aqui para te dar apoio.” 

Quando alcançaram uma boa altitude, o círculo no céu foi visível. Mais uma vez aparecia sobre Shinjuku, muito próximo do prédio governamental. Uma horda de Digimon começou a cair e voar dali.

– Isso vai ser show!

A máquina rodopiou se desviando de dois imensos pássaros negros, depois, se virando, permitiu que Sana mirasse neles e disparasse com as duas metralhadoras que estavam nos braços. Os viu cair enquanto a voz dos seus parceiros Digimon a avisava sobre outro inimigo chegando por detrás. Dessa vez era mais como uma serpente, uma enorme serpente com asas. Percebeu que deveria ser algum tipo de dragão.

A boca dele se abriu agarrando o tronco do mecha ao que Sana fez com que os braços convergissem contra a cabeça do Digimon protegida por um capacete de osso. Apertou os controles e começou a disparar contra o corpo dele, que foi obrigado a soltar. Despencou.

Quando Nasrin saltou das costas do Digimon águia, Aquilamon, Sana já havia feito um estrago imensurável contra as forças de ataque da Ellada. O corpo dos seus Digimon, ali fundido, ainda estava em perfeito estado e em condições de passar todo o final de tarde e noite batalhando.
 
– Ei. Acha que damos conta? Parecem ser muitos!

– Eu não sei você, mas eu estou detonando com eles! – A voz de Sana veio alta pelos aparelhos do mecha. – Mas sabe, pode ser um pouco injusto. Quando eu faço essa fusão entre o Lopmon e o Hagurumon, nós adquirimos o poder de um Digimon perfeito.

Nasrin puxou o Digivice, um holograma surgiu mostrando a visão de Aquilamon. A águia se movimentava como se estivesse costurando entre os Digimon que vinham do portal, sempre atirando lasers para derrubar os inimigos.

– Bem, você pode ter inimigos a altura em breve.

Três SlashAngemon desceram como uma lança e se dividiram em direções diferentes. Uma armadura dourada caiu de pé sobre um prédio e, desembainhando duas espadas, fez a capa azul esvoaçar.

– Que tipo de Digimon é este? Tenho certeza de que não conheço nenhum Digimon assim. – Aquilamon retornou o mais rápido que pôde.

“Eu, o Cavaleiro Santo, Grademon, venho em nome de nosso rei, em nome de nosso deus, em nome de Ruramon, tomar a Terra. Qualquer força de resistência será obliterada, qualquer um de nossa espécie que se juntar aos humanos será dissolvido. Essa é a ordem maior, o verdadeiro destino, a decisão do Deus Guerreiro da Ellada!”

– Que bastardo arrogante. – Sana redirecionou o mecha. A propulsão se intensificou o jogando como uma bala na direção de Grademon. Um dos SlashAngemon entrou em seu caminho a forçando a se desviar. A lâmina dos braços do anjo foi se arrastando pelo metal azul. – Disparem os mísseis! Tomahawk!

Dois compartimentos se abriram nas costas do robô. Os mísseis começaram a ser disparados, atingindo não apenas aquele SlashAngemon, como os outros dois e muitos outros Digimon que haviam saído pelo portal. Com o caminho aberto, Sana pôde continuar avançando. Jogou o corpo pesado e metálico contra Grademon e ele, cruzando as espadas, o tentou segurar. Os corpos se arrastaram por sobre o prédio faiscando.

– QUE DIABOS VOCÊ PENSA QUE EU SOU! – Tirou a mão de um dos controles analógicos e tocou a palma num círculo brilhante que havia no centro do painel. – Lopmon! Hagurumon! Força total!

– Isso parece uma brincadeira para vocês? – As espadas se dividiram num corte. Começou a girá-las e bater repetidas vezes contra a armadura de combate. – A resistência é inútil. O poder de Ruramon é supremo!

– É isso que você diz para assustar aqueles que vivem no seu mundo? Para que eles abaixem a cabeça e vivam debaixo dos pés desse Ruramon? Ham! – Girou a palma da mão no círculo. – Bunny Spiral Sword!
As metralhadoras nos punhos da máquina brilharam e deram lugar a duas lâminas brilhantes. O robô começou a rodopiar enquanto tentava avançar contra a defesa de Grademon.

– Vocês jamais...!

– Jamais o que? – Apertou ainda mais a mão contra o círculo. Cada músculo de seu corpo vibrava em contração, as veias saltavam no rosto, a boca se abria e gritava. Seu grito era como um rugido.
As espadas finalmente atingiram a armadura de Grademon. O corte profundo fez como que uma rachadura começasse a se espalhar a partir de seu peito. Entre cada estralo, o Digimon tinha um espasmo. Foi forçado a saltar para trás e repensar a sua estratégia de ataque.


– Meus dados? – Uma poeira luminosa vazava no centro da rachadura, onde as lâminas entraram. – Essa armadura, forjada pelo maior dos metalúrgicos de toda a Ellada, encantada pelo poder do Anjo Protetor, Princedomon. Como pode uma humana e um traidor fazerem isso?

A armadura tilintou. Apertou as mãos em torno das espadas.

– Eu, Grademon, não permitirei mais nenhuma heresia!

– Esse seu papo religioso de cavaleiro cruzado é tão século onze. – Aliviada, abriu um sorriso de canto. – Sabe, essa coisa já me deu nos nervos.

– Nenhum traidor pode ser tão forte...

– É mesmo? – Gargalhou antes de apertar os controles de novo. – Pede pra nerfar!
E se jogou contra Grademon disparando mísseis e com as espadas ao lado do corpo do mecha.

– A vontade de Ruramon deve perseverar!

Grademon saltou, seu corpo se chocou contra os mísseis e ressurgiu entre fogo, fumaça e poeira. As espadas rodopiaram, seu pé atingiu o corpo do mecha. Seja feita a vontade do salvador de nosso mundo, seja feita a vontade última do rei. Essa era a sua força. O robô foi lançado para trás antes que tivesse chance de utilizar do poder das espadas.

– Continuem firme! Ainda podemos vencer!

– O que é isso? – Nasrin estava nas costas de Aquilamon. A águia sobrevoava a batalha. – Esse brilho... São asas?

Os pedaços de concreto arrancados do prédio começaram a flutuar, os dados espalhados daqueles derrotados por Sana convergiram na direção de Grandemon e o brilho intenso de sua armadura formava uma estranha silhueta, como se houvessem doze asas distribuídas pelas suas costas.

– AAAAAAAAAAAAHHHHH!

Com o corpo inclinado, moveu as espadas como se fossem ponteiros de um relógio.

– Lopmon! Hagurumon! 

O corpo da máquina foi como um raio. Do impacto entre ele e Grademon veio uma onda de choque que estilhaçou qualquer janela nas proximidades e fez tremer a estrutura dos prédios. Mesmo as nuvens foram afastadas com aquilo. Aquilamon teve de lutar para se recuperar e não deixar que a parceira caísse de suas costas.

– Pelo meu irmão, pelo meu povo, pelo meu mundo!

Estavam presos numa disputa de forças com as espadas até Grademon desequilibrar o confronto com um chute. Suas espadas pareceram cortar a luz das lâminas. Sana urrou tentando transmitir qualquer força que tivesse aos parceiros, mas parou num espasmo de dor quando a espada atravessou o ombro da máquina. A moça segurava o ombro direito enquanto tentava recuperar os controles.

Grademon retirou a espada e a levantou. Toda aquela aura que o envolvia se convergiu na espada de sua mão direita. Ele desceu o braço com um movimento de corte. A espada atravessou o mecha transversalmente até o meio do corpo. Sana se espremia ali dentro, quase atingida pela espada. Mesmo que o golpe não a tivesse encontrado, ela sentia uma dor imensurável surgindo em seu pescoço e indo até a barriga. Os músculos começaram a se contrair numa tremedeira e as veias pareciam se estufar ainda mais.

– Lopmon... Hagurumon...! – Colocou a mão sobre o olho. – Não! Não não não não não! Não!

– Aquilamon! Temos que fazer alguma coisa!

– O poder de Grademon. Nunca vi nada assim. Seriam os generais tão fortes quanto ele?

[Fim da OST]

Um outro Digimon surgiu cortando o céu crepuscular de Tokyo. Ele era como a união entre dragão e cavalo, com um chifre lustrado e vermelho na testa e bigodes que se comportavam como um relâmpago. Seu próprio corpo vinha relampejando com Masha em pé nas suas costas. A menina apontou o dedo indicador para cima.

– Vocês! Fujam! A partir de agora é comigo! – E pulou com o Digivice em mãos. Apontou o aparelho para si mesma. Logo um pilar de luz desceu do céu e cobriu ela e Chirinmon.

“Matrix Evolution!”

Aquilamon se apressou, mas Nasrin puxou suas penas e apontou para Sana. O corpo do mecha finalmente se dividiu. A moça coreana caía do prédio abraçando os dois parceiros com tudo o que lhe restava, mesmo que a dor fosse insuportável ao ponto de fazer com que desejasse a morte.

– Rápido, Aquilamon!

A águia conseguiu por pouco alcança-los. Nasrin segurou o corpo de Sana enquanto desciam.
Ouviu-se um trovão. Um trovão muito alto num dia onde as nuvens eram facilmente contadas com os dedos de uma só mão. O homem cavalo em armadura rubra cortou o firmamento trotando em suas seis pernas. Grademon o tentou atingir, mas não pôde atravessar o escudo.

– Cesse esse ataque imediatamente, Grademon! Não me force a clamar pelos outros doze.

– Não me venha com suas mentiras, Sleipmon! – Tentou mais uma vez e outra vez e ainda uma última vez. Nenhum resvalo de sua espada, nenhuma aplicação de força sua tinha efeito. Este era o poder esmagador de um nível mega. O poder que Ruramon restringiu a poucos dos seus. Um poder além de todos os limites.
 
 
 
 
 
 
Este era o maior dos palácios da Ellada. As muralhas que o cercavam era a última camada da fortificação da Cidadela, a Cidade Armada, a Cidade Fortificada. Entre os pilares que se seguiam numa elipse cercando o centro do jardim, estava Sleipmon. O Sleipmon do passado. Um Sleipmon que ainda não tinha ideia de que não era completo, de que precisava de Masha junto dele.

Ao seu lado estava outro cavaleiro. O primeiro e absoluto rei da Ellada com sua armadura prateada, as ombreiras rubras, uma capa vermelha como rubi. Este era MedievalDukemon. Era ele o unificador que lutara contra os monstros do Abyss e estabelecera as fronteiras da Dark Area. Seu poder imensurável foi capaz de por medo mesmo em GranDracmon, o supremo vampiro.

MedievalDukemon era, para muitos, o mais poderoso Digimon já visto. Certa vez os Arcanjos, hoje desaparecidos, pediram sua ajuda. Mesmo eles sabiam que precisavam da força daquele rei para vencer certos inimigos.

E Sleipmon, Sleipmon não era deste mundo. Sleipmon viajara de uma dimensão perdida, designado como o protetor daquele mundo. Ele era também o auxiliador de MedievalDukemon.

– Por isso peço sua opinião, meu amigo. A ZSC, afinal, é criação dos humanos. Eles nunca nos trouxeram problemas antes, mas desde que os primeiros humanos partiram, a ZSC começou a mudar. Agora que os novos humanos chegaram... Eu não sei se posso deixar que se arrisquem lidando com a ZSC. Steelmon é um Digimon extremamente perigoso. Mesmo as máquinas Zonianas temem o que pode vir.

– Se ele é o membro que corrompe o sistema, talvez devamos separá-lo do grupo.

– Mas...

O som era de líquido borbulhante. Líquido borbulhante em movimento.

Dois olhos se acendiam dentro do tubo.

– O que exatamente estamos enfrentando?

MedievalDukemon bateu os punhos contra a mesa. Um grupo de cavaleiros o cercava. As portas eram guardadas pelos SlashAngemon. Sleipmon levantou o rosto e o encarou.

– Talvez exista esperança. A luz da evolução, o elo entre humano e Digimon.

O círculo de cavaleiros se dissipa. Sleipmon encara Ruramon que está posicionado acima dele. Os generais, numa posição abaixo daquela que ocupa seu rei, cercam-no. Ruramon bate uma lança contra o chão.

– Os humanos estão mortos.

– Mas existia uma. Eles a chamavam de Capitã Amélie.

– Sleipmon, os humanos são a causa de nosso problema. Não a solução. 

O som de borbulhas retorna. Mãos batem contra o vidro do tubo.

– Qualquer um que tiver contato com eles, será considerado traidor e será julgado diante dos Cinco Generais da Ellada, punido pelos olhos de Medusamon.
 
 
 
 
 
 
Grademon pende para trás. Os cristais de gelo começam a apontar em seus pés. Crescem até que todo o seu corpo esteja coberto. E então despenca do prédio. Os helicópteros já cercavam o local, as forças policiais já haviam evacuado as ruas, embora enfrentassem dificuldade para evacuarem os prédios.
Quando o corpo congelado de Grademon atingiu a avenida, uma cratera se formou, as pedras foram se levantando, a água foi esguichando e o gás escapava. O seu corpo se quebrou e estourou numa quantidade incontável de partículas brilhantes.

– A Ellada passou de todos os limites com suas ações!

Sleipmon pulou e, como se tivesse total controle sobre a força peso ou a massa de seu corpo, pisou seus cascos com leveza. Num brilho o seu corpo diminuiu em dois, embora, por Kudamon estar sempre no pescoço da menina, parecesse ser apenas um. Ela arfou e limpou o suor da testa. Avistou Nasrin do outro lado embaixo do corpo enorme de Aquilamon.

“Em posição. Suspeitos na mira, esperando ordem de fogo.”

A russa olhou para cima.

– Péssimo. Querem alvejar os seus defensores?

Uma tropa de chão avançava com fusíveis. Dos chifres de Aquilamon veio um laser que abriu uma fenda no concreto em torno deles impedindo que o conjunto de soldados armados avançasse.

– Era um ótimo momento para aquele Mameo aparecer.

E assim que disse isso, os helicópteros começaram a falhar e foram forçados a se desviarem para um pouso emergencial. Parecia haver também um erro na comunicação dos soltados terrestres, o que fez com que também se retirassem de volta para os veículos militares que os trouxeram.

– Aquilamon! – Nasrin chamou a atenção do Digimon. – Você consegue levar todos nós?

– Caraaaaa... Onde é que ele está? – Masha colocou a palma da mão acima dos olhos e ficou procurando por alguém. – Você viu alguma coisa?

– Não. – Kudamon esticou o corpo tentando achar também.

– Por enquanto fica o nosso agradecimento.

– Ei! – Nasrin gritou de cima de Aquilamon. – Vocês dois.

– Desculpe. Temos outro destino agora. – Acenou.

– Você é Masha? Masha Barinov?

– Wow. Eles conhecem você. – Kudamon se desenrolou e subiu na cabeça da menina. – Acho que deveria ir e ver o que querem.

– Isso com certeza é coisa sua, não é? Eu não sei como faz isso, mas com certeza já sabia que eles estavam nos procurando.

– Vamos! Nós somos a Morpheus.

– A Morpheus?

– O que é Morpheus? – Olhou para cima, o Digimon se escorregando em sua testa.

– Isso fica pra mais tarde. O importante é que eles voltaram.
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Mensagem por LANGLEY002 em Sab Nov 25, 2017 5:32 pm

Notas: Talvez eu tenha decepcionado um pouco para o Lawliet dizer que esperava pelo "verdadeiro" capítulo 20 ou pelo 21. Bem, aquele era o verdadeiro capítulo 20, assim como este é o verdadeiro capítulo 21. Não existe outro capítulo 20 ou 21. Mas é que a subtrama é bastante grande e afeta muito na trama principal e isso me fez desenvolver os personagens secundários nesses capítulos.

Além do mais, essa foi a última vez que pude enxergar Resonance como tema de abertura. Talvez eu comece a colocar as músicas em todos os capítulos a partir de agora. É claro que não há música para tudo. São mais para os momentos mais importantes, aqueles de drama, tensão ou lutas decisivas.
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Mensagem por LANGLEY002 em Sab Nov 25, 2017 11:50 pm


Letra:
Você consegue
Escutar minha voz,
Sendo sugada pela escuridão
Sem fim.

Se este mundo
Tivesse algum significado,
Estes sentimentos
Não seriam em vão.

Eu fui esmagado por minhas aspirações
E desisti,
Sem conhecer a cor
Do céu infinito.

Pois os pensamentos que começaram a correr,
Estão batendo em meu peito neste instante.
O "eu" de hoje continuará seguindo em frente.
Eu construirei um amanhã que pertença a nós.

A minha resposta é eu sempre estarei aqui.

Capítulo 22: Eu Respiro.



Tiveram uma noite longa. Mako não conseguia pregar os olhos, pois os detalhes dos planos de BanchoLeomon ficavam se repetindo em sua cabeça. Ele certamente tinha uma voz, uma voz heroica como nenhuma outra. A voz que comprimia toda valentia em ondas mecânicas. Talvez fosse impossível esquecer disso.
 
Eles iriam de trem. Demoraria para que os sistemas detectassem a sua presença. O corpo de um Trailmon é suficiente para confundir os sensores, mas o Trailmon que utilizariam fora modificado exatamente com o intuito de uma invasão. Nunca souberam como exatamente o utilizariam até a chegada dos humanos. Não era possível abrigar muitos Digimon de alto nível, já que estes ocupariam muito espaço, por isso parecia inviável mandar um Trailmon.
 
Enquanto os três entram por uma das estações, especificamente a estação Norte, pois é a mais distante dos Portões do Sul, a parte mais danificada da muralha e onde o primeiro grupo de BanchoLeomon atacará. Ele e BanchoLillymon juntos serão implacáveis contra WarGreymon. Assim este for derrotado, deixarão o grupo sob comando de Shawjamon, que este ponto já deverá ter chegado. Como BanchoLeomon e BanchoLillymon são ágeis, poderão se esgueirar pelos túneis da cidade até a muralha central. Lá eles cuidarão de Medusamon e... Jeannemon.
 
Mas Jeannemon ainda era uma incógnita.
 
Virou na cama. Apertou as cobertas como se abraçasse alguém.
O seu comportamento, a forma como julgou Jeannemon, foi o que deixou o amigo se sentindo culpado pela morte de DeathMeramon. Mas querendo ou não, estavam numa batalha que perdurara anos, uma batalha de libertação, pela queda do rei da Ellada. Querendo ou não, isso se tratava de uma guerra. Na guerra, a honra transcende a morte, pensou. Nenhum guerreiro viu desonra em matar, mas em desrespeitar o inimigo.
 
A desonra estava nos DeathMeramon e não em Daniel. E Jeannemon, apesar de para todos os aspectos ser uma traidora, não se podia julgá-la como má. Não para eles que lutavam contra a Ellada, ela era má para aqueles que defendem o sistema da Ellada.
 
O bem e o mal eram tão relativos que a menina sentiu fome. Lembrou-se que BanchoLeomon encomendara um banquete para aquela noite. Por mais que tantos Digimon estivessem espalhados pelos salões daquele prédio, sobrou muita comida e ela poderia encontrar alguma coisa. Desceu com cuidado e, esticando a perna, pulou por cima de SlashAgumon. Parou olhando para ele pela luz fraca que atravessava a cortina.
 
Dormia como uma criança. Teve vontade de sorrir, daquelas que fazem nossas bochechas formigarem. Bem devagar, se agachou e, ao se inclinar sobre o corpo enorme do réptil, deu um beijinho em sua testa. Ele estremeceu e ela teve medo de que tivesse acordado, mas depois ele apenas rolou a passou as garras coçando o local. Continuou dormindo.
 
A menina abriu a porta com todo o cuidado e saiu usando as meias para que não fizesse barulho. Depois de ir até a cozinha, pegar e comer um pedaço de torta, procurou por uma varanda. Tinha uma vontade imensa de ver o céu. Ao chegar, viu Daniel olhando para a lua.
 
– Não consegue dormir? – O menino se virou surpreso com a presença de Mako. – Eu não. Sempre que fecho os olhos, escuto o plano de BanchoLeomon.
 
– Eu sempre tive insônia. – Voltou-se novamente para o céu. Tinha muitas estrelas e as nuvens pareciam se espiralar em torno da lua e daquele ponto luminoso que pensaram ser o Mundo Real. – Quando estou nervoso, as coisas ficam piores. Eu fico inquieto e não suporto ficar deitado.
 
– Entendi.
 
A menina se junta a ele. Põe os braços cruzados sobre o parapeito, os olhos se direcionando ao céu. A brisa levanta cabelo dela e faz cócegas na orelha. Dá uma risadinha abafada e o menino a fita de lado.
 
– Foi só...
 
– Ela está bonita.
 
O rosto de Mako se pinta de vermelho.
 
– Não acredito que disse isso em voz alta! – Daniel desvia o rosto e puxa a gola da blusa para tampar metade do rosto.
 
– Não tem problema. – Mas mesmo que diga isso, também vira o rosto na direção contrária. – Todo mundo gosta de ser notado assim de vez em quando, né?
 
– Eu acho que sim... Talvez.
 
Respiram fundo, soltam o ar ao mesmo tempo.
 
– É que seu cabelo... – Ainda com o rosto virado, ele aponta para as mexas dela. – Ele cresceu. Ficou bom em você.
 
– Oh... – Enrolou as pontas nos dedos. – É mesmo. – Aproveitou que o menino estava olhando para o outro lado e o observou. – O seu também. Estava todo raspado quando eu te conheci. Não que estivesse ruim... Era moderno e... Sabe, um pouco... rebelde. Mas acho que assim fica melhor em você.
 
– Era rebelde, agora é triste.
 
Ela ri.
 
– Você tem uma visão de mundo diferente.
 
– O arquiteto.
 
– Ham?
 
– A Noriko me disse uma vez que meu arquétipo é o arquiteto. Ela diz que os arquitetos são todos estranhos. De um lado idealistas, do outro desmancham preceitos. De um lado podem ser eloquentes, do outro podem ser desconfiados e insociáveis.
 
– Ela parece entender bastante de psicologia então.
 
– Ah. É. Sim. Ela é formada em neuropsicologia.
 
Mako o encara, as sobrancelhas em pé e os olhos muito arregalados.
 
– Sério? – Ele balança a cabeça em concordância. – Mas... Mas... Mas! Não acha estranho que uma neuropsicóloga dê aulas de literatura numa escola primária?
 
O menino ri. Ela também ri. Depois disso há um enorme espaço de tempo preenchido por silêncio. Os olhos se cruzam e, encabulados, os dois se voltam para a lua. O vento sopra. As árvores balançam seus galhos. As folhas dançam no ar. As nuvens se movem rápido.
 
Um suspiro em uníssono.
 
Uma surpresa em uníssono.
 
Um riso em uníssono.
 
Uma brincadeira com as mãos.
 
Um abraço. Abraço que parte dela, pois de Daniel nunca partiria. Ele simplesmente não sabia como lidar com abraços. Ela o segura pelas costas e encosta o rosto ali. Não é tão sincronizado quanto seria quando com o SlashAgumon, mas também a conforta bastante.
 
Ele se arrepia. O corpo formiga. Não está acostumado com abraços e muito menos com pessoas como ela. Sachi certamente era quente, eloquente e tudo mais. Mas Mako, mesmo sem toda a extroversão da outra, mesmo tão guardada dentro de si, tinha uma alma em brasa.
 
– O Daiki estava estranho hoje. – Ela diz. – Ele nunca fica distante assim. Geralmente é... – Mas para. Não gosta da ideia de dizer isto ao amigo. Via em Daniel um ouvinte em potencial.
 
– Geralmente sou eu que faço isso? – Dá uma risada desajeitada. Ela concorda abanando a cabeça, coisa que Daniel não vê, já que ela está nas suas costas. Mas ele sente a cabeça dela balançar em seu ombro. – É... O solitário. O cara que quer fazer tudo sozinho.
 
– Eu sei que você vai fazer isso de novo. – Aperta o queixo no ombro dele. – No deserto nós fomos forçados, mas sei que você faria isso em outra ocasião. Você vai se separar da gente e ir atrás dela e do Twilimon.
 
– Por que você acha isso? – Esfrega a mão na boca. – Eu não quero fazer isso. Eu não sei o motivo de pensar que quero.
 
– Primeiro, por você realmente ser o solitário do grupo. Segundo, por você estar apaixonado.
 
O corpo todo vibra. Não pode ser, com certeza não pode ser. Não existe motivo para se apaixonar por... aqueles olhos estranhamente púrpuros e brilhantes, para aquele rosto que olha para ele como um teto branco numa noite reflexiva, por aquele cabelo escuro como breu. Os dedos apertam o parapeito com tal força que vão embranquecendo.
 
– Mas deve ser legal... ter alguém em quem pensar assim. Você pode pensar no formato do rosto dela, no nariz dela que parece tão perfeito, nos olhos dela que brilham mesmo num dia de chuva, no cabelo dela que é tão bonito, nas mãos dela que são macias e podem se encaixar perfeitamente nas suas.
 
– Não. – Balança a cabeça. – Não é assim. Só acho que ela precisa de ajuda.
 
– Você gosta de animes, não é? Nunca pude falar com o Daiki ou a Sachi sobre isso, mas imagino que você goste.
 
Ele concorda.
 
– No ano passado eles animaram um de mistério e drama. – Ela o vai apertando ainda mais. Os olhos se umedecem ao pensar na história. – Ele está insatisfeito com a vida e fica lembrando de um caso de assassinatos em série que começou pela menina problemática da sala dele. Ele não gostava nada dela na época, mas quando ele recebe o poder de retornar a infância, ele a quer ajudar. E é assim que começa. Todos veem que ele gosta dela.
 
– Se quer forçar que estou apaixonado, ao menos fale de uma história em que ele fica com a garota no final.
 
Mako ri.
 
– Pelo menos mostrou que sabe do que estou falando. – Solta os braços, se apoia de costas no parapeito. – Desculpa.
 
– Não é nada.
 
Quando levantou os olhos, viu Daiki num pijama. Os olhos dele estavam contornados. Eram olhos aflitos. A menina levantou a mão e ele deu um passo para trás franzindo as sobrancelhas.
 
– Daiki. Vem aqui com a gente.
 
– Não quero atrapalhar vocês. Eu só estava indo beber água. Já vou voltar pra cama.
 
O japonês retorna para o escuro do corredor.
 
– Acho melhor você do que eu. – Diz Daniel.
 
– O que?
 
– Pra ir falar com ele.
 
 
 
 
 
 
Os corredores são estranhamente brancos. Tudo é extremamente limpo e lustroso. As luzes de led são tão fortes. O balançar, o barulho das rodinhas, o ringido da maca, o oxigênio que recebe pela máscara (gás hilariante, não é mesmo). Tudo aquilo a faz ver coisas que não deveriam estar ali. Que atmosfera feérica. Deixe que me levem, me levem para não sei onde, para onde for.
 
As portas duplas se abrem. A colocam com cuidado num lugar confortável. Puxam eletrodos de todos os cantos para colocar em suas orelhas, testa pescoço e onde mais houverem nervos. Uma pulseira começa a medir os batimentos cardíacos. Preparam para liga-la às máquinas. Enfiam mangueiras e agulhas. Ela não sente, pois, aquela dor poderia cobrir qualquer coisa. A capsula se fecha devagar. É fria.
 
Vê o rosto de Noriko ali em cima. O rosto de Noriko. Quer alcançar Noriko, se dependurar no pescoço longo e esguio, apertar seus seios contra o corpo da mulher, apertar seus lábios contra os da mulher e seu peito arde só de pensar nisso. Mas ela não é capaz de se mexer. Sempre esteve imóvel quanto a isso. Que diferença fazia não se mover por conta da dor?
 
Sana sempre esteve atada quando se tratava desses sentimentos. Esses sentimentos que nunca entendeu.
 
Quando um menino a beijou antes num encontro duplo que uma amiga de Seoul a obrigou a ir, ficou totalmente decepcionada. Enquanto ele a queria encostar numa parede e continuar até não se sabe onde, ela não sentira nada. Nenhuma porcentagem de empolgação. Ela o empurra e ele se irrita com isso.
 
Ele segura seus punhos. Ele quer beijar de novo. Quer fazer aquilo de novo. Quer colocar o joelho entre suas pernas enquanto a encurrala. A respiração está tão rápida os batimentos estão tão fortes e o seu corpo salta salta salta bate bate bate treme e todos se apavoram e o aparelho apita e apita sem parar com aquele seu som agudo fino irritante perfurador de nervos.
 
Ela não quer não quer não quer me deixa em paz eu não quero me solta eu não quero dá um tapa empurra corre Lopmon cai Hagurumon cai os prédios caem a internet cai o jogo se desmancha em glitch porque a própria realidade cai.
 
Ela cai.
 
– Sana!
 
Noriko chora. Os homens de branco com o emblema da Morpheus no traje a seguram e a arrastam para fora do quarto. Liam aparece no final do corredor e vem correndo. Seus pés não têm som, sua respiração não tem som. Nada tem som nesse momento. Tudo é mudo diante do barulho que faz a sua aflição. Maldito zumbido. Maldito gosto amargo na boca.
 
Ele a abraça. Aperta com força. Ela desaba num choro barulhento, porém sem nenhum som. Porque para ela, tudo é mudo naquele momento diante do zumbido incessante de sua aflição. A voz fria de sua angústia.
 
Ele a guia pela mão até uma sala de luz confortável cheia de sofás e com um televisor enorme e até videogames (e parecem que logo depois de a Morpheus se reunirem, já atualizaram o local de acordo com os lançamentos). A sala comum da base de operações substituta. Uma que mantiveram em segredo do governo.
 
Ela, com ajuda, se senta no largo sofá que forma um semicírculo diante do televisor. Liam corre para buscar algo que a acalme. Ela bebe sem saber o que é e depois desmaia. Acorda tarde da noite. Ele ainda ao seu lado. Os outros mais jovens, incluindo Nasrin, tentam se distrair com um jogo árcade. Um relançamento de Crash, pelo que Liam percebe ao ver o animal maluco quebrando caixas e coletando maçãs.
 
– Como você está se sentindo?
 
– A Sana, Liam. A Sana.
 
– Eu sei, eu sei... – Ele a puxa para si. Aperta o rosto dela contra o seu peito. Os dedos se enfiam nos fios finos de cabelo e começam a se mover. Acaricia. Conforta.
 
– Eu deveria ter começado a treinar ela antes. Ela não tem o treinamento da Morpheus. Ela estava em perigo. Ela é como uma irmãzinha pra mim. Eu não podia deixar isso acontecer, não podia.
 
– Nori... Vai ficar tudo bem.
 
Noriko o empurra e se levanta aos tropeços.
 
– O Nerv Nexus! Eu preciso me conectar ao Nerv Nexus!
 
– E no que isso ajudaria?
 
Masha se aproxima do sofá. Kudamon dispara como uma bala sobre a cabeceira. O corpo se ergue para encarar os dois adultos.
 
– Certos estágios da evolução levam a uma sincronia tão alta entre tamer e Digimon que quando o Digimon morre, sente-se que perdeu uma parte de si mesmo. Quando o Digimon é ferido, sente a si próprio se fragmentando. – Num segundo está no ombro de Liam, que dá um pulo assustado com a fuinha. – Isso psiquicamente. Mas todo fenômeno psíquico tem ação no corpo. Além do mais, existe uma estranha transmissão de energia que nenhum cientista nos dois mundos consegue explicar nos estudos de hoje. Se o Digimon se fere, o corpo do humano se fere.
 
– É. – Noriko balança a cabeça. – A Sana teve inúmeras fraturas e está com hemorragia interna mesmo que não tenha sido atingida diretamente. E também está com contaminação psíquica.
 
– O Nerv Nexus não poderá curá-la fisicamente, mas...
 
– Mas poderá ajuda-la ao limpar toda a contaminação psíquica.
 
– Mas é perigoso! – Liam a segura pelo pulso. – Ele precisa de reparos!
 
– Eu não tenho escolha. Eu quero salvar a Sana!
 
– Kudamon. – Masha estende a mão. O Digimon sobe se enrolando e vai para o ombro da menina russa. – Enquanto você ajuda a Sana, eu vou procurar pelos outros tamers que você buscava.
 
– Por sorte, nesses últimos meses, temos viajado muito. – Kudamon vai para o cabelo volumoso e ruivo da parceira, se aninha ali. – Com ajuda de um Trailmon, nosso amigo, poderemos juntar todos numa única noite.
 
Nasrin se levanta.
 
– Eu vou com vocês.
 
– Eu também! – Hunk acena.
 
– Ótimo. – Masha olha para o relógio acima da TV. – Então temos que nos apressar. O Trailmon aparece em Tokyo toda meia-noite.
 
 
 
 
 
 
As três crianças e seus parceiros estão diante do Trailmon na Cidade das Maçãs. Este Trailmon parece um pouco menos comprido que os outros, embora seu corpo seja mais espesso e rígido. Disseram a eles que chegariam bastante rápido na estação, então deveriam estar bem preparados para o que viria.
 
Acenaram para os Applemon, BanchoLeomon e BanchoLillymon. Também para todos os outros que se juntavam ali na estação. Mentalmente, Daniel se programou para o timing. Seriam dez minutos a mais para a batalha externa começar. Teriam então dez minutos para se infiltrarem nos túneis e causar uma explosão no sistema de gás do lado norte. O fogo se alastraria.
 
Dentro dos aquedutos eles não seriam identificados, assim poderiam ainda atacar de surpresa quando fosse o momento. Mako apertou o Digivice. Para todos os aspectos, o que ocorre nas tubulações de gás é um vazamento e um acidente. Alguma faísca, alguma carga negativa se movimentando pelo dia quente, qualquer coisa poderia causar a explosão.
 
O Trailmon partiu.
 
Se impressionaram com o quanto a paisagem poderia mudar. Os vales e barrancos foram dando espaço aos campos, embora também se cercassem por montanhas. Ao longe, também nas montanhas, haviam enormes florestas de coníferas de todos os tipos. No caminho Mako se apertou contra a janela ao ver um animal estranho muito semelhante a um touro, mas maior, com duas vezes mais chifres e uma cor avermelhada.
 
– São Digimon?
 
SlashAgumon espremeu o focinho ali.
 
– Eles me dão fome.
 
Lunamon riu enquanto escalava o banco onde Mako e SlashAgumon estavam sentados.
 
– É porque não são Digimon. Não só os Digimon vivem nesse mundo.
 
– Tem um chip no lombo dele? – A menina viu um rasgo no lombo do animal onde um chip enorme estava enfiado envolto em fiações multicoloridas que vazavam por ali.
 
– Sim. E é a parte mais gostosa deles.
 
– Você tá dizendo que...? – Apontava enquanto fitava a coelha.
 
– Eles são uma das nossas principais fontes de alimento aqui na Ellada.
 
A Cidadela começou a aparecer. Um amontoado de muralhas onde os andares da cidade se escondiam. A cidade em si tinha um formato semelhante ao de uma torre. No centro, onde havia um palhaço prateado e brilhante, com um observatório enorme, quatro torres de cristal flutuavam como se orbitassem a construção.
 
– O que é aquilo? – SlashAgumon bateu a unha contra a janela.
 
– São os vigias. – Dorumon rosnou.
 
– Essas coisas foram criadas pelo Doutor Steelmon a pedido do rei. – A coelha gesticulou. – Elas não só servem como um órgão sensorial da Cidadela, como ampliam o alcance dos poderes de Princedomon.
 
– Princedomon, o Anjo Protetor. Princedomon o Escudeiro.
 
– Se eu tivesse de fazer uma estratégia para vencer os Generais, ele seria nossa prioridade.
 
– Ele é tão perigoso assim? – Diz Daiki acordando de uma soneca.
 
– O escudo dele ergue a defesa e resistência física de todos os generais.
 
– Ele é meu. – Dorumon rosnou.
 
– Sim. – Concordou Daniel.
 
– Ei. O que vocês estão dizendo? – Mako alternou entre os dois.
 
– Nós já discutimos isso entre nós.
 
– Acho que pode ser mesmo o melhor. – A princesa parecia aflita ao observar os vigias. – Ele estará logo na última camada da muralha, provavelmente no templo. O Dorumon é o melhor para se esgueirar e chegar até lá.
 
– Mas e então? – Daiki franziu as sobrancelhas.
 
– E então SlashAgumon vai acabar com qualquer um que seja perigoso para a Mako.
 
– O primeiro que nos enfrentará provavelmente será MetalGorimon. – Lunamon se voltou para o grupo. – Ele é um tanque. Se a bruxa tem o corpo mais frágil, é dele o corpo mais resistente. Mas não podemos deixar que ele nos encontre. Teremos de vencer a bruxa antes de sermos detectados.
 
– A bruxa? – Daniel se levantou. – Por que não nos disse sobre ela antes?
 
– Qual é o problema? – Lunamon não entendia o motivo da inquietação do moreno.
 
– O Twilimon disse que não foi ele quem amaldiçoou a Mako.
 
– Quer dizer que...? – As sobrancelhas da menina ficaram em pé. Seu peito acelerou. – ...foi essa bruxa?
 
– A Beldamon. Mestre da magia psíquica e arcana. – Lunamon está decepcionada consigo mesma por não ter notado antes. – Agora que você diz, só pode ter sido ela. Mas como ela sabia exatamente quem atingir?
 
– Como ela sabia sobre a Mako? – O rosnado se escapava pelos dentes cerrados do réptil. – SlashAgumon não vai perdoar o que ela fez.
 
A cidade foi crescendo conforme o Trailmon se aproximava. Logo podiam ver toda a grandiosidade de cada uma das muralhas. Nunca viram algo tão alto. Certamente não existia algo tão alto no Mundo Real. O trem foi se inclinando para cima e entrou num túnel no meio da muralha. Foram cruzando pelas estações até que as faíscas começaram a sair. Ele estava parando. Estavam na Estação Norte.
 
Aguardaram no trem por alguns minutos.
 
– Agora! – Dorumon foi o primeiro. Saltaram para fora e se esconderam atrás das pilastras para caminhar até o banheiro mais próximo. Entraram e bloquearam as entradas. Retiraram uma tampa metálica que estava ao lado da pia.
 
– É por aqui que a água alimenta o banheiro. – Lunamon pulou. Sua voz começou a ecoar lá de dentro. – Isso aqui, na verdade, alimenta toda a cidade.
 
As crianças foram atrás. Por último foram Dorumon e SlashAgumon que saltaram com a tampa nas mãos. O buraco se fechou com um estalo metálico.
 
Mako olhou em torno. Viu o canal no centro por onde a água passava. Tudo era contornado por aqueles caminhos de pedra. Aliás, tudo era feito por aqueles tijolos de pedra brancos que aos poucos foram se acinzentando e se cobrindo de lodo verde. Haviam tochas em cada esquina, mas estavam apagadas e pouco atrás deles a água descia em cascata. Ao olharem, viram uma saída, uma grade por onde a água caía.
 
– Uma fonte para a segunda camada. As estações em geral ficam na terceira e quarta camada. A estação norte é na terceira. – Explicou Lunamon. – Eu guio vocês.
 
– Fico assustado que você conheça isso aqui. – Daiki ergueu Lunamon. Ela pulou para trás dos seus ombros e ficou pendurada em suas costas, apoiada na mochila.
 
– Por ali! – Lunamon apontou.
 
– Espera. – SlashAgumon olhou em volta. – SlashAgumon está sentindo um cheiro desde o Trailmon. Mas só agora percebeu.
 
– Percebeu o que? – Mako chegou mais perto. – Tem alguém seguindo a gente?
 
– Agora que disse... – O focinho de Dorumon tremeu. – É o cheiro daquela outra menina, não é?
 
– Da Amélie?! – Disseram Daiki e Lunamon em uníssono. – O que ela está fazendo aqui?! Onde ela está!?
 
Todos riram da reação sincronizada antes de transfigurarem os rostos em suas expressões de preocupação.
 
– Eu sabia que tinha alguma coisa de errado com ela. – Daniel cruzou os braços.
 
– Ah, como você é perspicaz, não é? – Daiki o encarou.
 
– Ih, como é?
 
– Eu nem consegui falar com ela. – Mako esfregou o pé no chão. – Ela parecia fugir de mim, sabe?
 
– Eu conversei com ela. Foi uma conversa estranha, mas ela parecia ser uma pessoa legal.
 
– Pois eu passei a noite com ela e... e... – Todos fitaram Daiki ao mesmo tempo. – Por que estão me olhando assim?
 
Os sorrisos insinuadores se formaram. O menino finalmente percebeu o seu erro.
 
– Passou a noite com ela, hein? – Daniel riu.
 
– Você não tem nenhuma moral para falar disso. – Apontou para o moreno. – Você fica o tempo todo se esfregando na Mako.
 
– O que? – Avançou na direção do outro. – Me esfregando? Olha, nem é por mim, mas... Não dá pra respeitar a menina?
 
Mako abaixou os olhos.
 
– Não gosto de ouvir algo assim, Daiki. – Balançou a cabeça em discordância. – Não é que eu fique ofendida, mas... Eu só não esperava que você fosse babaca assim.
 
– Ei gente, calma aí. Tenho certeza que não foi isso que ele quis dizer. – Lunamon tentou acalmar os ânimos, mas Mako continuava com aquele olhar de desaprovação e Daniel continuava profundamente irritado e apertando os punhos. – Né, Daiki-san?
 
– Olha, pra mim já...! – Mas quando foi apontar para Daniel, não havia Daniel. Não havia Mako ou SlashAgumon. Nem Dorumon que farejava curioso. Foi passar as mãos nas costas e Lunamon havia desaparecido.
 
Tudo agora era um espaço vazio e negro.
 
– Mas o que é que...?
 
Esticou as mãos tentando encontrar as paredes do aqueduto. Pensou que talvez, só talvez, Lunamon havia descido. E talvez por algum motivo, o local estivesse escuro. Mas não havia nenhuma borda, e por mais que ficasse sustentado ali, em pé, agachado ou sentado, não havia chão. Não havia nada.
 
Apenas frio.
 
Você é o melhor Daiki. Todos sabem que você é o melhor. Ninguém tem mais chances que você. Olha só o Daiki, ele é tão alto. As meninas cochicham, os meninos gritam e o englobam em suas rodas de conversa. Os professores passam por ele sorrindo, com exceção de Noriko. Vários nomes feios para Noriko. Noriko não tem direito de não gostar dele.
 
Todos os professores sabem que ele é o melhor. Se ela não entende isso, é porque é uma grande de uma...
 
Censura a si mesmo. Os pais estão diante dele e ele não pode falar coisas assim. Não ele. Não alguém de sua classe. Não alguém de uma família tão tradicional. Ele tem que sentar a mesa como mandam as regras, comer como diz a etiqueta e deve reservar parte do dia para os estudos e lições diárias. Antes de sair, preste respeito aos avós. Acenda os incensos e faça sua oração.
 
Agora pode ir. Você é o melhor. E quem é você? Você sabe? Você não passa de um boneco. As pessoas depositam suas vontades, as pessoas fazem suas vontades acontecerem. Afinal, se elas controlam as juntas do boneco com as mãos, se elas o manuseiam por meio das cordas, você manifesta a vontade delas.
 
Você é o que elas quiserem que você seja, não é?
 
Daniel se assustou quando tudo se apagou. Caiu para trás e não sentiu o tombo. Apoiou os braços para se levantar e não sentiu o chão. Seu cérebro doía em pensar como era possível se levantar num espaço vazio como aquele.
 
Gritou por Dorumon, por Mako, por SlashAgumon, por Lunamon. Só não gritou por Daiki. Não queria saber de Daiki. Queria bater em Daiki. Queria fazer Daiki pagar por tê-lo abandonado quando mais precisava. Começou a chorar enquanto dava socos no ar.
 
Depois de tudo o que ele fez para ser um bom amigo, Daiki o deixou na primeira chance. Assim que recebeu a primeira desaprovação do grupo social, da escola. Assim que Kenzou disse, ele abaixou as orelhas como um cachorro, se encolheu e nunca mais se aproximou de Daniel.
 
E agora insinuava que Daniel estivesse fazendo o que? Dando em cima de Mako? Certamente era cabível ter atração pela menina, mas ele não tinha. Certamente ela era uma pessoa ideal para qualquer relação, pois o entendia com uma facilidade que ele nunca teve, já que jamais entendeu a si mesmo. Mas mesmo que gostasse de Mako e a menina correspondesse, Daniel não tinha o direito de falar daquele jeito.
 
Não tinha o direito de tentar ofendê-lo por abraçar Mako. Não tinha o direito de decepcionar a menina como o decepcionou anos atrás.
 
Assim, a imagem imóvel de Daiki surgiu e ele partiu para cima do menino e bateu. Mas não havia mais nada. E então Daiki surgiu de novo e a escola apareceu. Ele sentiu que tinha uns oito anos. Daiki o observava afastado, um olhar de medo. Um grupo de meninos com uniformes bem alinhados o cercava, todos de rosto riscado por um X de grafite muito escuro. O único que não tinha um X era Kenzou.
 
O menino deu uma risada. O chamou de estrangeiro, de esquisito, de mariquinha. Todos o empurraram e meteram-lhe o pé no estômago, costas, coxas, costelas. Tudo. Ninguém o socorria. Ninguém o ajudava.
 
Daiki! Daiki! Daiki!
 
O amigo só se afastava.
 
O grito de desespero virou grito de ódio, rancor. A manifestação mais pura do ranço. Se levantou no meio dos pontapés e meteu um soco contra o rosto de Kenzou que girou e caiu. Os outros se amontoaram em cima dele, mas ele os venceu, pois estavam todos crescendo e nesse tempo ele já havia começado a praticar Kung Fu.
 
Depois de derrubar todos, correu na direção de Daiki. Mas os meninos o seguraram de novo e quando o jogaram no chão, ele afundou em água. Não tinha voz e não conseguia respirar. Todos os sons eram abafados e distorcidos e todos os seus movimentos só o cansavam.
 
É inútil tentar.
 
Mako caiu de joelhos. As lágrimas tomaram-lhe o rosto. Foi tão repentino aquele aperto em seu peito. Não sabia como reagiria senão cair chorando. Mas depois de um certo tempo, secou as lágrimas e foi levantando pronta para se desculpar.
 
– Me desculpem. Acho que estou um pouco estressada.
 
– Qual é a do plural? – Uma menina sardenta de cabelo castanho e comprido a observava da cama. – E você sabe que... pedir desculpas não muda nada, não é? – Fungou. Nariz e olhos estavam vermelhos e úmidos. Estivera chorando?
 
Mako, perdida, olhou em volta. Era o seu quarto, exatamente como se lembrava. O seu quarto em Seattle. Nunca deixaria de reconhecer aquele lugar onde passou a maior parte de suas noites. Havia um computador de mesa ao lado de uma televisão antiga, os pôsteres de filmes de todos os tipos forravam as paredes junto com alguns de suas bandas favoritas.
 
O guarda-roupas havia acumulado adesivos. Alguns eram frases, por vezes animadoras, por vezes tristes. Outros eram personagens de desenhos animados ou de franquias famosas como Star Wars. E no centro desse guarda-roupa estava um espelho. O cabelo dela estava comprido, pois isso foi antes de ela cortar, semanas antes de ir para o Japão.
 
Olhou para a cama. O grande boneco de pelúcia do Totoro se encostava na cabeceira da cama. A mãe prometeu que o levaria quando pudesse viajar ao Japão. Mas a menina sentia no fundo que a mãe nunca chegaria, pois ela era um fardo e ela estragou tudo. Ela cortou todas as fitas vermelhas que se atavam aos dedos dela e dos pais. Ela era uma menina má e bagunceira.
 
E curiosidade era desculpa para isso? Era desculpa para que? Para meter a tesoura no que quisesse? Para rabiscar cadernos? Para sair de skate com um bando de meninos? Que tipo de menina você é? O que quer dizer com “esse tipo de menina”? Escuta bem, eu sou seu pai. Escuta a sua mãe. Olha aqui menina. Vai já para o seu quarto.
 
A porta abre, a porta bate. A porta abre, a porta bate. A porta abre, a porta bate.
 
A janela ergue e cai. Ergue e cai. Ergue e cai.
 
Todos aqueles sons se repetindo e a amiga a encarando decepcionada, um olhar de choro.
 
Andar de skate por aí com um bando de meninos. Vê o skate em cima do guarda-roupas. Ele rola e cai no chão. A prancha se quebra ao meio. A porta do guarda-roupas se abre e um violão despenca e se despedaça no chão com um alto barulho de cordas.
 

– Isso não muda nada.
LANGLEY002
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Mensagem por LANGLEY002 em Seg Nov 27, 2017 12:03 am

Nota: O nome do capítulo 22 vem de uma tradução do termo grego que deu origem a palavra psíquico. O mesmo termo era como um modo de dizer "si mesmo" para os gregos. Mas essa referência fica bastante explícita no decorrer do capítulo, que tem foco em fenômenos psíquicos dos personagens.

Esse capítulo trouxe um monte de outras referências e acho que está melhor escrito em relação aos outros. Embora essa autoavaliação tenha me animado, não conseguir ter o mesmo desempenho no capítulo seguinte (que já está quase pronto), me deixa um pouco decepcionado.
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Mensagem por Lawliet em Seg Nov 27, 2017 10:08 pm

Gostei bastante do capítulo. A sua melhora na narração é notável. Gosto de como os pensamentos dos personagens por vezes se misturam com a narração. Estou curtindo muito a maneira que a história está aos poucos se desenrolando.

Bem, você sabe que meus comentários são bem curtos xD
Mas prometo que no próximo vou me dedicar mais a fazer algo maior e mais completo. Até lá, aguardo pelo próximo capítulo.
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Mensagem por LANGLEY002 em Qua Nov 29, 2017 4:45 pm

Entendo. Entendo.

Uma pergunta? Viu que eram dois capítulos? Só na dúvida, já que no comentário você disse "o capítulo". Fico sem saber se leu os dois.

E também, você nem respondeu ao meu outro comentário. Eu tinha te deixado uma pergunta depois de você comentar o capítulo 20. Se puder responder, seria muito bom saber que personagens você tem gostado mais.

Acho que esse tipo de feedback poderia me ajudar no desenvolvimento deles.
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