O caminho da loucura

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O caminho da loucura  Empty O caminho da loucura

Mensagem por Rayana em Sab Jan 28, 2012 9:24 pm

Faz algum tempo, eu li um texto que achei de uma inteligência e profundidade dignas. Quem quiser perder uns minutos a ler, faça favor...

    DE.: Rubem Alves

    Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto.E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

    Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoascujos livros e obras são alimento para a minha alma: Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski.

    E logo me assustei.

    Nietzsche ficou louco.
    Fernando Pessoa era dado à bebida.
    Van Gogh matou-se.
    Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia.
    Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.
    Maiakoviski suicidou-se.

    Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental?

    Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, ver o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.
    Pensar é uma coisa muito perigosa...

    Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso.
    Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão.
    Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

    Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores.
    O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.

    O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.

    Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.

    Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou pordefeitos no software.
    Nós também.
    Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou.
    Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.
    Não se conserta um programa com chave de fenda.
    Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele.

    Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos.
    Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se valede recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas,
    palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

    Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado.

    Imagine um aparelho de som.
    Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.

    Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias.
    Opte por um software modesto.
    Evite as coisas belas e comoventes.
    A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados.
    Já o funk pode ser tomado à vontade.

    Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?
    Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente.
    Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais.
    E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

    Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.
    Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é.

    E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos.

    Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram


Este texto tocou-me de uma forma muito particular porque faz-me pensar muito na posição dos artistas e dos intelectuais que estudo. Sobretudo, o lugar que esses artistas ocuparam na nossa sociedade, marginalizados, vistos como loucos, e condenados à ruína...

Eles eram "loucos" porque eram seres humanos que questionavam constantemente o mundo, a vida, com os seus sistemas e valores. Eles são o contrário da maioria dos seres humanos que prefere viver alienada pela rotina.

Vivemos numa sociedade-rebanho, anestesiada por programas como A Casa dos Segredos (o actual Big Brother português). As pessoas querem viver numa área de conforto, seja ela provocada por bens materiais, por fofocas, por religiões dogmáticas, seja o que for: algo que as distraia dos problemas ou que responda de forma rápida e eficiente aos problemas mais imediatos.
Quem pensa diferente é marginalizado. Hoje em dia está na moda catalogar essas pessoas de "hipsters". Eu já fui confrontada com este argumento: "Quando eu penso demasiado sobre a vida, fico triste, então, eu não penso".

Será que é assim tão mau procurar quebrar a barreira do senso comum...? Pensar sobre "de onde viemos" ou "para onde vamos"? Dado à natureza do nosso mundo social?


Por outro lado, existe o extremo oposto.
Eu vejo professores de universidade de nariz empinado a passear os livros pelos corredores das faculdades. Eles têm aquelas conversas intelectuais afectadas, de quem está acima de tudo e de todos. Aquele discurso de "Eu sou demasiado intelectual para ler Harry Potter". Ou até mesmo Twillight, tanto faz.

Mas será que para ser-se inteligente uma pessoa tem que passar 24 horas por dia preocupados em filosofar sobre Nietzsche? Será que a uma pessoa intelectual não é permitido ver futebol? jogar playstation? rpg?

O que me impede de assistir um anime académico como O Cemitério dos Pirilampos, e logo a seguir ver o último episódio de Naruto? Só porque são para públicos opostos? Será que este conceito de "públicos" ou "grupos sociais" não é um estereótipo?



Não é por acaso que Fernando Pessoa falava da Ignorância como um estado privilegiado de "felicidade". O ser humano alienado não se preocupa em pensar de onde veio a Vida, para onde vai o Homem, ou se Deus existe... No entanto, todos reconhecemos o conhecimento como algo bom e necessário. Mas com cuidado, porque é um fruto perigoso... que pode atirar-nos para as chamas do niilismo e da desilusão com o mundo social que nos envolve e não nos ouve.

Quanto mais o Homem evolui intelectualmente, mais isolado ele se encontra.
Quase podemos dar razão aos religiosos que acusam os artistas de serem demónios. Com efeito, são anjos do saber, que encontraram a sua perdição numa sociedade que se assusta com eles, e os faz cair... desmotivando as suas acções, ao não dar crédito aos seus valiosíssimos contributos para a evolução intelectual e moral da Humanidade.

Durante a vida, eles são ignorados, taxados de loucos.
As pessoas só parecem lembrar-se deles quando eles morrem... são menos perigosos.

O que pensam a respeito?
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Mensagem por Takuya em Sab Jan 28, 2012 9:43 pm

Ótimo texto, concordo plenamente com a análise. Bom, não penso que seja algo que acontece apenas com artistas e intelectuais. Qualquer pessoa que tenha o hábito de refletir, de pensar sobre a vida, que cultive o intelecto, cedo ou tarde se confronta com essas questões, e até mesmo são considerados loucos por pensar de forma diferente.

Realmente, existe um certo conforto na ignorância, porque o conhecimento, apesar de ser bom e libertador, traz algo que muitas pessoas tem medo: responsabilidade. A maioria das pessoas não quer pensar nas responsabilidades que possui, não só como cidadão, mas como ser humano. E isso vai muito além de pagar impostos e trabalhar de forma regulamentada.

Sobre a questão do isolamento, é algo que o ser humano precisa se acostumar. A realidade é essa, querendo ou não, gostando ou não, nós estamos sozinhos na nossa missão, no caminho que escolhemos seguir na vida. Ninguém pode decidir por nós, ninguém pode sofrer por nós, ninguém pode se levantar por nós, porque é algo que somente nós mesmos podemos fazer. A principio parece algo chocante, mas é assim que funciona na realidade. Eu mesmo vejo muita gente sofrendo porque espera receber felicidade dos outros, como se isso fosse responsabilidade dos outros. Não é. Cada um é responsável pela propria felicidade ou infelicidade, creio eu.

Na minha opinião, o que mantém as pessoas na zona de conforto da alienação é o medo. Medo de enxergar a realidade como ela realmente é e reconhecer que somos nós os responsáveis por transformá-la, não o governo, os políticos, ou quem quer que seja.
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Mensagem por Jyunirii em Dom Jan 29, 2012 9:00 am

Nao darei quote, mas metade do que eu queria falar o Rafa falou.

Chega a ser ironico o texto, tava a pensar justo nisso ontem a noite, em meio a festa. Sim, uma festa, enquanto todos estao se divertindo me manti numa mesa a brincar com um copo e pensar sobre alguns problemas cujo se eu nao o resolvesse traria mais problemas pra minha familia. Quase chorei ao ver o quanto eu fugia do convivio e "responsabilidade" de me manter "sorrindo e levando uma vidinha alegre de uma garota comum de 15 anos". E por incrivel que pareca, sou a unica a pensar deste jeito, a unica a se isolar e resolver o que for possivel sozinha, sem gritar por ajuda. Minha familia me acha estranho por isso, fala que sou paranoica e que nao me adequo a realidade brasileira (ser uma funkeira com filhos aos quinze ou uma menininha retardada gritando o nome de uma bandinha que e tao inutil quanto eu).

Eu adorei o texto, Ray, nao e a minha primeira vez que penso sobre isso, mas me tocou de verdade. E foi como o Rafa disse, cada um corre atras da sua felicidade baseado no caminho que escolheu, das decisoes que fez, sendo elas boas ou ruins (se bem que acho que toda escolha que fazemos aprendemos algo com ela, porque sempre cometemos algum erro, basta que alguem o repare e nele nos afunde ou que nos o notamos antes que se complique.).
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Mensagem por aswq em Dom Jan 29, 2012 10:18 am

Se me lembro já tinhas postado isso na antiga DF a muito tempo =P

É normal as pessoas se exibirem ou se acharem superiores tendo mais intelecto, ou o mesmo que outras, afinal as pessoas põe-se sempre num patamar acima das outras e se acham únicas (obviamente, não me excluo disso). Seria fácil arranjar exemplos, podem até observar neste próprio forum.

Realmente, pra se ser inteligente não é preciso ler o que os filósofos escreveram ou ouvir musica clássica. No máximo seremos considerados intelectuais, adquirimos um pouco mais de inteligência (ou não) e subimos pra um elitismo que exclui, como disseste ray, pessoas que vêem futebol, jogam playstation e etc...
Uma pessoa que vê BBB/Casa dos Segredos/wtv pode bem ser mais inteligente que uma ouve musica clássica/etc, mas há coisas bem mais interessantes do que usar a inteligência que se chamam preguiça e diversão, e talvez esse até tenha sido o erro desses sitados no inicio, não se souberam divertir (apesar de naquele tempo ser mais difícil que agora, pois atualmente já não podem ser perseguidos, pelo menos não tão abertamente kk)

PS- eu sei, a minha organização das frases e ideias não é das melhores riariariariariariaria
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