Os personagens de Adventure: o que têm de especial?

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Mensagem por Rayana em Qui Fev 23, 2012 6:50 am

Vamos ser honestos, Adventure é a temporada mais querida, e aquela que possui mais fãs dentro da franquia digimon. No entanto, fãs são pessoas suspeitas, porque "ser fã" significa colocar algo acima de todas as outras coisas, por vezes, com um exagerado saudosismo e nostalgia.

Praticamente todos os fãs de digimon actualmente com mais de 18 anos são fãs de Adventure ou da sua sequela, por razões emotivas.

Todos nós gostamos de histórias de ficção, porque elas falam de coisas que nos dizem respeito. Nós gostamos de animes porque eles falam de emoções. E falar de emoções significa falar do Ser humano.

Por isso, os personagens e o desenvolvimento delas são tão importantes. É através dos personagens que nós temos acesso ao mundo ficcional de Digimon. Durante o momento em que estamos a assistir o anime, as paixões, as conquistas, as derrotas, as fúrias... tudo isso torna-se também parte de nós, durante aquele tempo.

Mas neste tópico, eu tenho um desafio:
- Vamos falar racionalmente dos personagens? Só racionalmente.



1) Que tipo de personagens são os de Adventure?
Muita gente não pára para pensar nisto, mas os personagens de Adventure são muito típicos da geração de 90. Reparem que a forma como eles foram pensados não é exactamente igual a nenhuma das outras temporadas seguintes.

Eu tenho a convicção de que eles foram construídos na base de estereótipos sociais, mas sem se prenderem demasiado a isso. Estes personagens evoluíram com o passar do tempo para perfis muito específicos, à medida que viviam os seus dramas e conquistas.

Os estereótipos seriam:
- Taichi, o herói hiperactivo, aventureiro, atleta, idiota
- Yamato, o rebelde, calado, de passado misterioso
- Sora, a maria-rapaz, tomboy, aventureira
- Koushiro, o geek, inteligente, fácil vítima de bullying,
- Mimi, a menina cor de rosa, egoísta, feminina & fashion, mimada
- Jou, o ranhoso de óculos, rato de biblioteca, o menino dos professores, sabichão
- Takeru, o pirralho chorão, agarrado às saias da mãe.

É possível associar estes clichés ao próprio design deles. E no entanto, nós sabemos que nenhum destes personagens é exactamente como eu aqui os descrevi.

A Hikari é a prova flagrante disso. Ela entrou numa fase do anime em que estes estereótipos já estavam a ser desviados, e por isso a Hikari não corresponde a um estereótipo social, talvez para não chocar com o tecido narrativo do anime. Talvez ela pudesse ser "a menina que gosta dos animais". Mas acho que esta é uma imagem muito vaga. Diferente do "Geek metido a hacker" ou da "Menina Paty / Patricinha". Ela também entrou já com outro tipo de características.



2) Como eles evoluíram?
Sim, diz-se muito por aí que os personagens evoluíram. Mas como? Que estratégias foram usadas para isso? Existem ponto-chave que podemos referir?


Taichi:
- Episódio do Greymon vs Shellmon - não atirar-se de cabeça contra perigos maiores do que ele
- Episódio do Seadramon - não fazer bullying nos outros (ele queria tirar o casaco de peles do Gabumon, Yamato zangou-se com ele e impediu-o)
- Episódio do Andromon - respeitar as coisas dos outros (aquela mania de bater no computador do Koushirou para fazê-lo funcionar lol)
- Episódio do Skull Greymon - há uma diferença entre "ser corajoso" e "ser mártir" (ele posou de mártir para resolver os problemas do grupo e criou mais problemas do que solucionou)
- Episódio do Piccolomon - aprender a não desistir, a perdoar os próprios erros
- Episódio da Pirâmide - aprender a não brincar com o fogo (Etemon & Gazimons), direccionar o atrevimento para o lugar certo
- Episódio do Metal Greymon - lutar pelo que é certo
- Episódio 21 - aprender o altruísmo (ele volta ao mundo digital)

E é engraçado, que a partir deste episódio, ele já deixou de ser o cliché que eu mencionei antes. Entramos numa fase diferente do anime, onde o importante é aprender desenvolver os personagens em função dos símbolos que eles representam: coragem, amizade, amor, conhecimento, Inocência, Lealdade e Esperança.

O climax do desenvolvimento dos nossos oito protagonistas acontece em Odaiba. A Toei sabe que o espectador já conhece os escolhidos, e começa a expandir um pouco o território.
Eu não gostaria de deixar de mencionar os personagens figurantes, que representam a sociedade japonesa que vivia em Tóquio nos anos 90.

Odaiba não é um paraíso:
- Vemos gente bêbada nas ruas
- Vemos gente vaidosa (aquelas moças pipis de Shibuya xDD)
- Vemos crianças egoístas e a (im)paciência dos pais para os educar
- Vemos gente interesseira e maliciosa

Até mesmo o sujeito que dá carona aos escolhidos, ele não faz isso por caridade.
O fulano lá empresta a carrinha dele, porque acha a Sora e a Mimi-chan bonitas. xD Mas é extremamente desagradável com os resto das crianças. Engraçado é que existe também um certo lago ingénuo, lá para o final (quando empurra o Koushirou, ele fica preocupado kk).

É esta a "casa" para onde os Escolhidos TANTO queriam voltar?
Meio decepcionante, não?
Uma tóquio suja, barulhenta, com gente a mais (tanta gente por perto, e no entanto, os escolhidos continuam "sozinhos" e sem saber como voltar para casa. kk irónico, não?). Sozinhos e com problemas, no meio de uma multidão.
Mas essa é a outra parte do anime, a crítica social (e o humor que usam para isso), que talvez mereça outro tópico.

Não quero estar a massacrar-vos com detalhes, mas quero sugerir que pensem também sobre os pais dos escolhidos. Eu não vejo muitos animes hoje em dia que se preocupem em dar carisma aos adultos.

Geralmente, só os mais jovens podem ser heróis.
Reparem que na maioria das histórias ocidentais, até matam os pais logo no começo da história, para que o leitor sinta pena do "protagonista, órfão, sem amor". Matar os pais é uma estratégia que compra neste tipo de literatura a liberdade do protagonista. E então, todos os erros do protagonista tornam-se "desculpáveis"; ele torna-se uma excepção à regra social e torna-se mais interessante.

Vemos isso praticamente em todo o lugar: desde Harry Potter, passando pelas Crónicas de Narnia, e acabando em Tom Sawyer ou Oliver Twist.

É nestes pequeninos detalhes que está "o ouro" desta temporada; é que Adventure consegue dar um ritmo muito subtil à evolução dos personagens, e trabalha-os de uma forma muito particular. Ele começa pegando nos clichés, mas vai moldando-os e fazendo humor com eles, até chegar à saga dos Dark Masters.

Este é a terceira parte do anime, e aquela que eu acho mais "pesada". Os personagens já têm características pessoais muito fortes.
Taichi e Yamato discutem, já não por causa do casaco do Gabumon, mas sim por questões existenciais. Qualquer deslize significa a morte das crianças (por mais que a gente saiba que o bem sempre ganha, e que os Mestres das Trevas vão morrer, e que eles vão salvar o mundo).

Para um anime dito "para crianças", acho até que tem mais substância do que certas merdas que a gente vê por aí para adolescentes. (Eu ainda me pergunto qual o propósito de K-On... mas relevem)
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Os personagens de Adventure: o que têm de especial? Empty Re: Os personagens de Adventure: o que têm de especial?

Mensagem por Takuya em Qui Fev 23, 2012 8:01 am

Rayana Wolfer escreveu:Para um anime dito "para crianças", acho até que tem mais substância do que certas merdas que a gente vê por aí para adolescentes. (Eu ainda me pergunto qual o propósito de K-On... mas relevem)

True, concordo plenamente. E particularmente, esse foi um dos motivos que me manteve gostando de Digimon até hoje. É como se toda vez que assistisse, tivesse algo novo pra descobrir, algo que eu não tinha percebido antes, ou mesmo coisas que eu ja conhecia e não compreendia, e passo a compreender. E sinceramente? Digimon é a única coisa que marcou a minha infância com que eu tenho um laço forte até os dias de hoje, por tudo isso que eu mencionei acima e por várias coisas que você descreveu no tópico.

Bom, gostei da forma como você mostrou os episódios onde houve desenvolvimento do Taichi, resolvi fazer um parecido pro Takeru xDD:

Episódio da Cidade do Príncipio - primeira experiência sozinho no DW, teve que se virar sem o Yamato e aprender a confiar no Patamon;
Episódio da Derrota do Devimon - experiência traumática, a partir daqui o desenvolvimento dele se torna mais notável, apesar dele continuar sendo a criança chorona por mais algum tempo;
Episódio do Picodevimon - me parece complementar ao episódio 12 (Cidade do Principio), de novo ele precisa se virar sozinho, briga com o Patamon e aprende que precisa confiar nos seus amigos (e não apenas no Yamato);
Episódio do Gotsumon e Pumpmon - esse é um tanto diferente dos outros, mostra a forma como ele lida com a separação dos pais, e como isso o afeta. Também mostra um amadurecimento na relação de irmãos com o Yamato (Yamato já não protege exclusivamente o Takeru, eles lutam juntos agora xD);
Episódio do Pinochimon - mais um que desenvolve o relacionamento Yamato x Takeru, e serviu de base pro que aconteceu em seguida (Yamato x Taichi). Aqui o Takeru já conquistou confiança o suficiente pra se virar sozinho, nos casos de necessidade, sabendo que poderia contar com seus amigos caso preciso (enquanto o Yamato ainda achava que só ele tinha que "cuidar" do Takeru, e que o Takeru não conseguia se virar sozinho ainda);
Episódio da Derrota do Piemon - pra mim é o ápice do desenvolvimento dele. Aqui, aquele que todos protegiam fica encarregado de proteger a única restante (Hikari), e por instantes, o destino do DW ficou sobre os ombros dele (que responsabilidade pra uma criança de 8 anos, lol). Em vez de chorar e se esconder, ele aceita essa responsabilidade, e luta até o fim pra cumpri-la (a cena que ele engole o proprio choro pra não desencorajar a Hikari é uma das provas desse amadurecimento). No instante que tudo parece perdido, ele compreende seu papel no grupo, como escolhido, e isso ativa seu brasão \o/
Episódio Final - temos de volta o Takeru chorão! Mas dessa vez é um motivo compreensivel, afinal ele nunca mais iria ver o seu querido Patamon... o que não tirou as esperanças do Takeru deles se reencontrarem um dia, e viverem novas aventuras (e não é que isso aconteceu mesmo?)

E que bom que nenhum pai ou mãe teve que ser sacrificado pra desenvolver os personagens de Adventure \o/
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