Debate: Salmo 109 no primeiro filme de Digimon Adventure

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Mensagem por Kamirisu JxS em Ter Dez 04, 2012 6:44 pm

No momento não estou disponível para comentar verdadeiramente o tópico (tipo, ainda não li tudo, estou com sono). Só vou deixar umas notas relativamente a umas coisas que me chamaram a atenção:

Rayana Wolfer escreveu:Se falarmos do "computador que controla as coisas", não se esqueçam que Atanasoff Berry Computer e ENIAC são os servidores do DW de Adventure. Os jogos do Ryou Akiyama falam disso.

No universo de Adventure é o ABC e ENIAC. E o que se diz em XW não tem a ver com Adventure, embora tenha percebido aonde queres chegar.
ABC e ENIAC são os criadores de todos os Mundos Digitais (Adventure, Tamers, Frontier, Savers, Xros Wars, etc). Precisamente esse é um dos assuntos que abrangem todas as temporadas. (e que seria de elevada importância a sua abordagem)

Rayana Wolfer escreveu:Yggdrasil existe apenas nos universos de:
- Digimon Savers (anime)
- Digimon X-Evolution (filme)
- Digimon Next (manga)
Em Digimon Xros Wars (manga) também, em Frontier possivelmente (por causa dos 2 RK vistos) e noutros que se desconhece.
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Mensagem por Rayana em Qua Dez 05, 2012 9:56 am

Meu, isso é pura indução. Em Xros Wars, dizem que aquele Mundo Digital é mais velho do que o Mundo dos Humanos (aquele que o Taiki habita...). Ou seja, aquela Digital World não foi criada a partir da rede de dados do Mundo Real do Taiki, como acontece nas outras temporadas; aquele universo já existia antes da rede de computadores ser fundada sequer. O portal que conecta o Mundo Digital de Xros Wars ao Mundo Real de Xros Wars só apareceu depois, por "compatibilidade" de matérias, digamos assim.

Podemos elaborar a teoria de que o suposto ENIAC que sustenta o Mundo Digital de Xros Wars tenha bases noutro mundo real muito mais antigo do que o mundo real que o Taiki habita, mas isso já é puro achismo e especulação.

Mas não vamos ficar offtopic por favor - podes abrir outro tópico para isso.

Gol D. Roger escreveu:@Rayana: Realmente tudo levantado aí não foi inventado por você. Certamente todas essas coisas estão em Adventure, e é a parte mais profunda do enredo de longe - as personalidades e o desenvolvimento/mudanças. Só me decepciona que toda essa profundidade aparece às custas de muitas outras coisas, como essa personificação do "mal" sempre, sempre ser um vilão fabricado e completamente fake no quesito de ser vilão por ter um objetivo razoável e original, ter atitudes mais presas à realidade e mostrarem um tom sério. A impressão que me dá é simplesmente que alguns personagens já nascem maus por definição e morrerão maus, enquanto as crianças escolhidas, apesar de terem sombras em seu desenvolvimento como humanos, sempre acabam sendo anjos da justiça, e os Digimon assumem o papel de robôs obedientes que oferecem ajuda emocional e uma pouca pitada de personalidade (existem exceções, eu sei, não me joguem pedras). Facilmente Adventure seria um anime mil vezes melhor se os vilões e os próprios parceiros tivessem todo esse insight profundo e atenção especial do roteiro que os 8 escolhidos têm. Se não fosse toda essa atenção dos produtores de Adventure para com eles, e o desenvolvimento de fato muito bom que tiveram na história, o anime seria idêntico a um Hunters da vida, ou Pokémon.

Compreendo a tua decepção, mas não te esqueças: isso é o que estás a dizer agora, com a mentalidade de 18 anos de idade.

Eu quando tinha 11 anos achava que Digimon Adventure era super-complexo e havia muitas coisas que eu não compreendia. Por exemplo, eu não entendia os dramas do Yamato e achava que ele era um estúpido que complicava o que era simples (lol). Outro personagem que me irritava era o Jou, mas hoje eu simpatizo imenso com ele e compreendo-o perfeitamente. Só comecei a compreender melhor a complexidade dos personagens mais tarde quando tinha 14 anos - houve outras coisas que eu só compreendi aos 16 anos, e outras que só compreendo agora, com 24 anos.

Não podemos esquecer-nos do público-alvo da série. Eu acho que ela está bem estruturada, faseada por arcos e apresentando elementos novos por fases, de modo a que as crianças compreendam o que se passa de forma gradual. A série começa com um clima leve, quase de brincadeira, de crianças que só querem voltar para casa - e termina com um clima obscuro e pesado, cheios de responsabilidades como salvar o mundo.

Cliché? Talvez. Mas funciona? Perfeitamente! Para mim, a genialidade de um trabalho existe quando se consegue explicar coisas complexas com artifícios simples. Não séries de TV que usam esquemas mirabolantes e complexos que às tantas nem os próprios autores entendem mais o que significam. 'xD

Claro que podiam inventar um passado recalcado para o Vandemon, mas dado o número de episódios e o contexto da série, não é necessário. Apocalymon explicou os motivos para "agir mal" no lugar de todos os vilões, nos 2 últimos episódios. Foi um motivo para ser "malvado", mas ainda assim, foi extremamente ambíguo. Quando Apocalymon diz "Quem tem o direito de decidir que não podemos mais evoluir? Nós queremos falar de amor também! Queremos ser úteis ao mundo!" - ele faz o espectador questionar se ele não terá razão para agir como age.
Mas o problema não está na vontade de rir e de falar de amor - o problema está nos meios usados para atingir esse fim. Isso é explicado bem no final da série.

Além disso, entendo que isso de "bem" e "mal" é um erro de interpretação ocidental. Estás a focar-te demasiado dos Digimaus e dos Digiheróis. O Yin e Yang que a Hikari menciona no episódio 45 significa muito mais do que luz e trevas. Uma criança de 11 anos, vai interpretar como "bem" e "mal", claro. Mas quando tu cresces, consegues perceber que aquilo traduz a tua postura como Homem inserido num mundo, que está cheio de obstáculos para ultrapassar. É muita coincidência que eles falem do "Yin Yang" justo no episódio que explica como e porquê que as Crianças se tornaram "Escolhidas". É claro como a água de que aquilo simboliza a jornada de descoberta das 8 virtudes (coragem, amizade, etc), com vista ao equilíbrio dos "mundos".

Eis porque o Salmo para mim não traduz uma postura de vingança e de vontade de aniquilação do mal, mas sim uma postura onde tudo o que pensamos e falamos trás consequências para a realidade - independentemente de serem profecias boas ou más. O que importa é que o Verbo deu origem a algo. xD (Mas aqui depende muito do que vocês conhecem da bíblia e que interpretações lhe dão).
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Mensagem por Gol D. Roger em Qua Dez 05, 2012 3:51 pm

Quando eu era novo nem atenção na história eu prestava, apesar de ficar revendo e gravando na mente o que se passava em cada episódio. Não chegava nem ao menos a admirar, como você diz ter feito, a suposta complexidade, porque nem terreno de compreensão pra admirar coisas bem feitas eu tinha desenvolvido direito ainda xD. E tenho a impressão de que demorei mais a amadurecer (não somente para animes, como para muitas outras coisas) do que aos 14+. Nem sei realmente porque eu, dos 4 anos até aquela época, era tão obcecado com esse "desenho legal" e pensava tanto nele repetidamente. Sei que o que me viciou na infância mais distante foi simplesmente as sequências musicais de evolução e alguns golpes, nada mais. Mas perceber o contexto com maturidade além disso, demorou muito, mas muito mesmo. Concordo quando diz que para as crianças são conceitos geniais - basta comparar com Beyblade ou o anime de Pokémon imparcialmente para reparar como Digimon é "foda".

Em minha opinião foi bom Apocalymon ter mostrado esse tipo de lado, e sido criado especificamente para mostrar o sofrimento de quem está do lado dele. Mas não deixa de ser um tapa buraco para quinhentos outros vilões, afinal essa história de todos os vilões até então terem sido produtos diretos dele é péssima de engolir cegamente. Foi BOM, ele ter sido criado e aparecido daquela maneira, para pelo menos tentar dar um motivo ao lado dele. Melhor do que continuar do jeito que foi até o fim, sem pelo menos tentar dar uma explicação. Mas justificar, não fez.

Acho que pareci deixar de lado o bem e o mal de dentro das 8 crianças quando falei sobre isso, mas eu não ignoro isso, até porque os conflitos internos e evolução delas, como falei, foi muito bem feito. O que quis dizer com o bem e mal aparecerem divididos é justamente a questão dos vilões que ocupam o lugar de ferramenta pra fazer a história andar, ao invés de reflexões. A maioria das reflexões vêm das próprias crianças, suas famílias e seus Digimon, não de um vilão. Ao invés de mostrar que dentro dos vilões também existe bem e mal, eles deixam essa parte apenas pras crianças e ofuscam qualquer tipo de qualidade que os vilões pudessem ter (Apocalymon sendo a exceção). Realmente eu exagero quando fico falando de bem e mal continuamente, e como você disse, o Yin e Yang representam muito mais do que essas duas palavras rasas. Mas o que eu quis dizer foi justamente que eles mostraram no anime que esse equilíbrio interno só existe dentro das crianças, e os vilões são simplesmente obstáculos sem sentimentos que agem por agir (enquanto as crianças podem gozar de aprender com seus erros, evoluírem e se tornarem mais fortes aceitando ou vencendo sobre suas próprias trevas).

Com sorte eu consegui complicar tudo mais ainda. Dx

Pra não ficar off-topic: O salmo 109 apareceu no filme. Interessante.
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Mensagem por Rayana em Qua Dez 05, 2012 4:11 pm

xDD Entendo. Havia pessoal da minha idade que odiava Digimon, e muitos diziam mesmo que os desenhos eram demasiado desenvolvidos. Lembro-me de uma colega minha que não gostava do Agumon porque tinha dentes demais e "nem sequer é fofinho como o Pikachu" AEUHAEUHAEUHAEUHAE Eu fiquei furiosa com ela. xDDDD Lembro-me que gritei alguma coisa como "NÃO É PARA SER FOFINHO, É PARA LUTAREM CONTRA O MAL" e fui zuada durante bastante tempo, mas fazer o quê...

Então, mas é bem esse o espírito. Se eu falar hoje, é bem óbvio que concordo contigo na tua "frustração", e assim posso dizer, com a falta de desenvolvimento dos vilões que são bem chatos.
Há um tópico aqui na DZ onde votamos nos vilões favoritos de Adventure - e lá eu disse mesmo que sinceramente não tenho nenhum favorito. São Mugendramon e Apocalymon, se tanto.

E vá, aquilo é só uma justificação dado o ponto de situação da história. Apocalymon não teve um passado recalcado por maus tratos com a mãe, ou algum outro tipo de cliché pseudo-freudiano que alguns filmes de Hollywood gostam de explorar, para justificar as acções do vilão. Ele é mau porque ele é mau (LOL). Se ele tivesse um passado desprezado pela mãe (ou qualquer coisa parecida) talvez fosse uma "justificação" para algumas mentes, não sei. A verdade é que não existe desculpa para fazer o mal, e essa é a questão.

Só que digamos que estou mais conformada com a fórmula do vilão que faz o mal porque é esse do seu papel. Aliás, não é bem conformada... mas é que esta é uma fórmula universal que não afecta apenas Digimon, como tu mesmo acabaste mencionando.

Durante toda a tarde de hoje (e ontem também) tenho estado a fuçar em autores deste tipo de tema, e até que enfim encontrei um vídeo que ilustra bem o que quis dizer:



Neste vídeo, são o exemplo de Harry Potter, de Hunger Games e de LOR. Repara como todos eles exploram a jornada dos heróis, e em todos eles o vilão é mau "apenas porque sim". Todos têm vilões ditadores que querem conquistar o mundo.

Outro video que ilustra o pensamento: http://www.myspace.com/video/vid/3654554

Então... não é que eu não entenda essa frustração. Mas digamos que estou disposta a aceitá-la com um sorriso no rosto, porque consigo tirar prazer da mensagem - mais até do que a história em si.

Claro, é daqui que surge o conceito de "cliché" que as pessoas aprendem a desprezar, em nome de histórias mais ricas e inovadoras - onde o vilão seja um pouquinho melhor do que aquele banana que ri-se para o vácuo com MWAHAHAHAHAA sem razão aparente. Mas vá, eu procuro histórias assim noutros lugares - não em Digimon.

PS.: Em acredito que Digimon Adventure em particular deva ser interpretado deste modo "simples" e metafórico - e não muito do ponto de vista literal. Porque se vocês fizerem isso, a história já sai frustrada a partir do momento em que a Digital World manda vir 8 crianças de outra dimensão para resolver os seus próprios problemas. xDD Que espécie de mundo é esse que fica à espera da chegada de uns messias para virem limpar a bosta que eles próprios criaram? Não não. Temos que colocar-nos do ponto de vista dos heróis. É neles que o espectador deve focar-se.
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Mensagem por Hinata Plusle em Seg Dez 10, 2012 10:42 pm

Esse tópico já foi criado há 1973626387 anos e eu nunca tinha parado para ler direito, que tipo de DZniense sou eu.

Enfim. As conclusões que eu tirei lendo o salmo foram mais ou menos as que saíram por aí mesmo.

É engraçado que, de fato, DA tem um ótimo desenvolvimento dos protagonistas, mas faz "só o necessário" em história e peca (com o perdão do trocadilho) feio em vilões. Normalmente os vilões são os que mais fazem roteiristas, desenhistas, diretores e o caralho a quatro quebrarem a cabeça - não são raros os casos em que eles são até mais populares que o herói, que quase sempre é puro, corajoso, bondoso, bonito, perfeito demais para qualquer um se identificar. Eu sei, isso não acrescenta nada, mas foi algo que não pude deixar de reparar.

E já que a conversa foi pro lado dos vilões: o vilão "MUAHAHAHAHA, VOU DOMINAR O MUNDO" nunca fez sentido pra mim. Pensem: se o cara quer dominar o mundo, ignorando o que poderá fazer de ruim com os outros, ele certamente é muito egoísta e mesquinho. Do tipo "ah, eu vou deixar fulano na mão, mas foda-se". Agora, sádico? Isso não atrapalha os planos, não é muito antiprático, pouco inteligente, pouco realista? Pessoas inteligentes e más não fazem todos se curvarem a elas: mantém o poder simbólico de sejam lá quais inimigos sejam para mandar por trás das cortinas. O assassinato de Júlio César e o título de "salvador da república" de Otávio Augusto (tá, sei que não se escreve assim, e não digo que nenhum dos dois era necessariamente mau, até porque gente totalmente má ou boa não existe; mas que eles tinham ideias não muito democráticas, não se pode negar) estão aí para provar.
Só que aí, poderia-se pensar que os vilões da ficção são obcecados por manter imagens ou não tão inteligentes? Não, esse tipo é mais "fácil" de derrotar - exceção feita aos que têm apoio público (mas grande parte dos vilões (e heróis) sequer vive em sociedades normais). Sendo assim, o feito dos heróis seria algo "não tão grande", "poderia dificultar mais". Acho que isso não faria sentido.

Eu ia acrescentar alguma coisa, mas ainda falta estruturar. Quem sabe quando eu conseguir, venho aqui e edito.
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Mensagem por Convidado em Ter Dez 11, 2012 5:57 pm

Hinata Plusle escreveu:É engraçado que, de fato, DA tem um ótimo desenvolvimento dos protagonistas, mas faz "só o necessário" em história e peca (com o perdão do trocadilho) feio em vilões. Normalmente os vilões são os que mais fazem roteiristas, desenhistas, diretores e o caralho a quatro quebrarem a cabeça - não são raros os casos em que eles são até mais populares que o herói, que quase sempre é puro, corajoso, bondoso, bonito, perfeito demais para qualquer um se identificar. Eu sei, isso não acrescenta nada, mas foi algo que não pude deixar de reparar.

E já que a conversa foi pro lado dos vilões: o vilão "MUAHAHAHAHA, VOU DOMINAR O MUNDO" nunca fez sentido pra mim. Pensem: se o cara quer dominar o mundo, ignorando o que poderá fazer de ruim com os outros, ele certamente é muito egoísta e mesquinho. Do tipo "ah, eu vou deixar fulano na mão, mas foda-se". Agora, sádico? Isso não atrapalha os planos, não é muito antiprático, pouco inteligente, pouco realista? Pessoas inteligentes e más não fazem todos se curvarem a elas: mantém o poder simbólico de sejam lá quais inimigos sejam para mandar por trás das cortinas. O assassinato de Júlio César e o título de "salvador da república" de Otávio Augusto (tá, sei que não se escreve assim, e não digo que nenhum dos dois era necessariamente mau, até porque gente totalmente má ou boa não existe; mas que eles tinham ideias não muito democráticas, não se pode negar) estão aí para provar.
Só que aí, poderia-se pensar que os vilões da ficção são obcecados por manter imagens ou não tão inteligentes? Não, esse tipo é mais "fácil" de derrotar - exceção feita aos que têm apoio público (mas grande parte dos vilões (e heróis) sequer vive em sociedades normais). Sendo assim, o feito dos heróis seria algo "não tão grande", "poderia dificultar mais". Acho que isso não faria sentido.

De acordo com o que já foi discutido aqui, acredito que os vilões de DA buscavam transformar o mundo para realizar seus anseios. O último arco é a prova disso. Eles não são maus porque querem e sim porque a evolução "os obrigou". E isso, automaticamente, os excluiu da felicidade plena que os Digimons normais viviam. Os sentimentos ruins: raiva, inveja, egoísmo são frutos não só sua própria maldade (porque a maldade é uma característica base de Digimons tipo vírus, teoricamente), mas também das suas vontades pessoais, o desejo de ser "aceito". Acho que essa impressão negativa também ocorre por causa dos seus designs. Vamdemon é super caricato, por exemplo. Eles precisam de uma aparência mais obscura, porém nada tão assustador ao ponto de afastar o principal público de Digimon, que ainda são as crianças.

Ou não, sei lá...
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Mensagem por Gol D. Roger em Qui Dez 20, 2012 3:09 am

Rayana Wolfer escreveu:A verdade é que não existe desculpa para fazer o mal, e essa é a questão.

Só que digamos que estou mais conformada com a fórmula do vilão que faz o mal porque é esse do seu papel. Aliás, não é bem conformada... mas é que esta é uma fórmula universal que não afecta apenas Digimon, como tu mesmo acabaste mencionando.

Durante toda a tarde de hoje (e ontem também) tenho estado a fuçar em autores deste tipo de tema, e até que enfim encontrei um vídeo que ilustra bem o que quis dizer:



Neste vídeo, são o exemplo de Harry Potter, de Hunger Games e de LOR. Repara como todos eles exploram a jornada dos heróis, e em todos eles o vilão é mau "apenas porque sim". Todos têm vilões ditadores que querem conquistar o mundo.

Outro video que ilustra o pensamento: http://www.myspace.com/video/vid/3654554

Então... não é que eu não entenda essa frustração. Mas digamos que estou disposta a aceitá-la com um sorriso no rosto, porque consigo tirar prazer da mensagem - mais até do que a história em si.

Claro, é daqui que surge o conceito de "cliché" que as pessoas aprendem a desprezar, em nome de histórias mais ricas e inovadoras - onde o vilão seja um pouquinho melhor do que aquele banana que ri-se para o vácuo com MWAHAHAHAHAA sem razão aparente. Mas vá, eu procuro histórias assim noutros lugares - não em Digimon.

PS.: Em acredito que Digimon Adventure em particular deva ser interpretado deste modo "simples" e metafórico - e não muito do ponto de vista literal. Porque se vocês fizerem isso, a história já sai frustrada a partir do momento em que a Digital World manda vir 8 crianças de outra dimensão para resolver os seus próprios problemas. xDD Que espécie de mundo é esse que fica à espera da chegada de uns messias para virem limpar a bosta que eles próprios criaram? Não não. Temos que colocar-nos do ponto de vista dos heróis. É neles que o espectador deve focar-se.

Em primeiro lugar, o vídeo é muito foda. Sempre tive essa impressão mas nunca me dei conta com total consciência de como essa fórmula está presente em milhares de obras. Como fã de Harry Potter, também tenho de concordar com tudo que disse sobre essa necessidade. Histórias que têm uma base enorme em heroísmo e luta climática contra o vilão acabam caindo nessa necessidade de esvaziar de certa forma a humanidade do antagonista para dar um foco maior na luta do que nas razões. E não caem nisso por serem mal feitas ou mal planejadas: mas sim porque esse cenário com o vilão mau porque sim dá uma vibe e um clima único a qualquer história que seja, algo que acaba faltando, mesmo que pouco, em histórias em que o vilão é mais humano e frágil.

Voldemort não tem objetivo - apenas tornar-se imortar, reunir seguidores à sua causa e conduzir um massacre das raças "inferiores" à la nazismo. Mesmo mostrando sua infância e as origens de seus valores, assim como sua busca incessante pelo poder desde a juventude, Rowling não justifica, e nem tenta justificar, sua maldade por causa de um passado sofrido ou motivos sentimentalistas. E é ISSO que faz da saga de Harry Potter algo mais assustador e de arrepiar. É exatamente essa ausência de humanidade em Voldemort que me fez ficar arrepiado e realmente temer pelo Harry em cenas como a do cemitério, da casa de Batilda (OMG!) e do duelo final. Você tem certeza de que ele não se arrependerá - talvez somente no final dos finais, mas você nunca sabe se vai acontecer -, e realmente teme pelos quais podem vir a morrer em seguida, visto que o vilão não reflete, é orgulhoso e não tem motivos no passado que o levem a mudar de lado na última hora.

Ganondorf (não pude deixar de pensar em Legend of Zelda durante todo o vídeo, por combinar perfeitamente em cada pequeno aspecto que foi sendo apresentado) tem apenas o objetivo de conseguir poder, e eventualmente vingança contra os descendentes dos que o aprisionaram, pelos séculos e séculos em cada tentativa. Não há uma "vingança maior" ou motivo para se rebelar. A única vingança que ele deseja é aquela contra os que impediram sua crueldade em primeiro lugar, ou seja, ele é mau porque sim. E não preciso dizer que isso cai como uma luva para uma série de jogos épicos com várias conexões entre si (nos quais ele não aparece em vários, pra não ficar sempre igual, mas whatever), onde ele sempre está disponível para entrar na história desempenhando o papel de motivador do mal do mundo. Não há outros vilões para competir, não há guinada súbita na história, não há um momento sentimental entre heroi e vilão - há apenas a decisão de lutar e o foco no objetivo de erradicar o mal. E funciona bem, afinal é um jogo em que o foco não é na história. Mas para os que se interessam pela história desses jogos é possível perceber o mesmo ponto que há em Harry Potter, em que um vilão sem motivo funciona melhor dado o devido terreno.

E é mais ou menos isso que acontece em Digimon, pelo menos em Adventure. O vilão é um ponto da história irredutível, sem motivo profundo ou chances de mudar de lado, para poderem focar-se nos protagonistas à vontade. Porém, o que me incomoda na franquia é que isso é reusado e reusado até o limite - infinito, pelo que parece. Eu vejo como algo positivo em Harry Potter (e Adventure também, em parte, mind you) pelos motivos que já disse e por Apocalymon/Voldemort serem a raiz de tudo, servindo como objetivo. O fail é aparecerem 500 vilões um a um antes do Apocaly que sempre são maus porque sim, e no final quererem que engulamos que todos eram "um" em Apocalymon. O foda é ver isso sendo reusado em todas as temporadas com meia exceção em Tamers. E outra: o terror e o medo que Voldemort chega a passar não existe em totalidade nos vilões das temporadas em geral, por serem mais infantis. Mas deixando as críticas de lado, Digimon tem certos lados bons quanto à relação heroi/vilão. Em Xros Wars, eu curti o fato de não ser só mais uma historiazinha sobre um garoto raquítico que junta peças de lego pra ganhar do vilão malvado. Haviam de fato quatro (!!!) exércitos em formação na história, e muita coisa pra ser explicada. Pra os níveis de Digimon, eu achei desenvolvido. Aí começou a segunda temporada e virou três exércitos contra um, matando tudo que havia de potencial e voltando pro clichê. Mas a segunda temporada teve alguns momentos bons na luta contra Bagra. Poucos, mas teve.

A que eu considero mais original continua sendo Savers. No início ninguém sabe de porra nenhuma sobre quem é Suguru, Kurata, Mercurymon, Yggdrasil ou os RK. Aí Mercurymon vira o vilão. SaberLeomon aparece como sendo do lado maligno. Aí é revelado tudo o que eles sofreram por causa do Kurata. Aí depois Yggdrasil ataca, e o antagonista volta a ser digital. Pra Digimon, é uma história bem desenvolvida, que parece confusa mas mostra exatamente como seria uma guerra entre mundos ambos machucados um pelo outro onde cada um dos lados pode ser compreendido. Mas e aquilo que eu falei lá em cima sobre um vilão mau por ser mau ter uma vantagem única contra outras histórias? É mantido, mas como ilusão. A ilusão inicial de Mercurymon ser filho da puta é mantida até tudo ser revelado. Se tivéssemos cenas que mostrassem a natureza boa de Mercurymon, a sensação de "o vilão é mau" seria perdida, e essa é uma sensação preciosa que faz seu papel em Adventure e Frontier, apesar de reusada. É assim que eu penso.

Mas mesmo eu entendendo tais vantagens do mal absoluto como alicerce da história, eu continuo sendo fã de vilões humanos com sentimentos, mesmo que um pouco da aura maligna seja perdida. Como Chrollo Lucifer de HxH e a própria Genei Ryodan - alguns gostam dos companheiros, outros se matariam, outros são neutros no grupo etc. É raro um anime ser foda a ponto de fazer você sentir a tristeza de um dos antagonistas ao ver sua reação a um dos outros vilões ser morto pelo heroi, sem fazer ele ser um fraco ou revoltado contra o mundo, mas continuando a ser foda (Nobunaga). Assim como Meruem fez o papel de vilão absoluto (Vamdemon/Voldemort/Ganondorf) durante a maioria da saga, mas no final mostrou seus sentimentos, não por ter uma história triste por trás nem por se arrepender, mas abrindo o coração um pouco sem deixar de ser maligno e desumano de seu próprio jeito.

Ah, mas tá pra ser criada alguma série em que a relação vilão/heroi seja tão foda, diversa, criativa e não-clichê quanto One Piece. Oda é um gênio do caralho!
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